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Postagens

A Outra Margem

Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além metafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade ( ...
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A Compaixão Radical no Bodhicharyāvatāra: O Caso do Cão Orelha

O caso do cão Orelha, vítima de violência absurda perpetrada por jovens em Florianópolis, não é apenas mais um episódio de crueldade contra um animal indefeso; funciona como um espelho desconfortável daquilo que pode emergir quando a mente humana perde suas referências éticas mais básicas.  A comoção pública é legítima, mas, à luz do budismo mahāyāna — e em particular do Bodhicharyāvatāra de Śāntideva —, esse tipo de acontecimento também nos convoca a uma investigação mais profunda: não para relativizar a violência nem dissolver responsabilidades, mas para compreender que o sofrimento ali exposto não se limita à vítima visível.  Diante de um ato extremo de crueldade, a mente comum tende a buscar rapidamente uma divisão óbvia: de um lado a vítima inocente, de outro o algoz monstruoso. Essa separação é psicologicamente compreensível, mas, segundo Śāntideva, ainda pertence a uma visão incompleta da realidade.  O caminho do bodhisattva começa exatamente onde essa ...

A Generosidade no Bodhicharyāvatāra: A Perfeição que Sustenta o Caminho

No Bodhicharyāvatāra, a ausência de um capítulo explicitamente dedicado à perfeição da generosidade não indica lacuna doutrinal, mas o próprio alicerce silencioso sobre o qual todo o edifício do caminho do bodhisattva se ergue. Śāntideva escreve como quem pressupõe algo decisivo: quem se aproxima desse caminho já deu o passo mais difícil. A geração da bodhicitta não é uma técnica entre outras, mas um deslocamento radical do eixo da existência. Decidir tornar-se um ser deperto para o benefício ilimitado de todos os seres não é apenas um voto; é a forma suprema de generosidade, pois envolve a oferta antecipada de tudo aquilo que ainda não se possui — o próprio despertar, os méritos futuros, a própria identidade como projeto separado. Por isso, nos capítulos iniciais, quando os versos se movem entre louvor, oferenda e confissão, a generosidade não é tematizada; ela é o ar que se respira. Antes de ser ensinada, ela já foi assumida como condição de possibilidade do caminho. Essa...

Bodhicharyāvatāra: O Paradoxo da Vontade Pessoal

Um dos desafios mais sutis do Bodhicharyāvatāra, e da tradição budista em geral, especialmente quando vista a partir de uma perspectiva contemporânea, emerge justamente no ponto em que sua profundidade filosófica, associada ao seu caráter pragmático, parece tocar um limite psicológico: como pode uma mente ainda estruturada pelo confinamento do eu gerar, de modo autêntico, uma motivação que pressupõe a superação desse mesmo eu? Como desejar, com sinceridade, o benefício ilimitado dos outros seres quando o próprio campo da experiência ainda é atravessado por medo, apego, carência e autodefesa? Longe de ser uma fragilidade do texto, esse paradoxo revela o núcleo pedagógico do caminho delineado por Śāntideva. No primeiro capítulo, a bodhichitta é exaltada como algo quase inconcebível: uma joia rara, capaz de transformar até os estados mentais mais ordinários em causa de libertação. Essa exaltação, no entanto, não é dirigida a uma mente já purificada, mas a praticantes ainda ime...

A Motivação no Bodhicharyāvatāra: A Bodhichitta como Reorientação Existencial

No terceiro capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado de Adotando Plenamente a Bodhichitta, revela-se uma pedagogia espiritual que não visa apenas refinar estados mentais individuais, mas reconfigurar radicalmente a direção da existência. As práticas ali apresentadas não funcionam como atos isolados de devoção ou ética, mas como movimentos precisos de uma mente que aprende a sair do confinamento do eu e a habitar o horizonte vasto do benefício ilimitado à todos os seres.  Assim, a passagem do segundo para o terceiro capítulo não marca apenas uma mudança temática, mas uma inflexão silenciosa e decisiva no movimento interior do praticante. Trata-se de uma transição existencial, na qual a mente, antes voltada para a purificação de seus próprios entraves, começa a aprender a habitar um espaço mais vasto, orientado não mais pela reparação do passado, mas pela doação consciente no presente.  Entretanto, o capítulo 2 conduz a um esvaziamento necessário: nele, o su...

Bodhicharyāvatāra: Integrar a Sombra ou Dissolver o Ego?

É possível ler o capítulo 2 do Bodhicharyāvatāra, tradicionalmente conhecido como “Confissão das Faltas”, como um exercício devocional ou como uma preparação ética para o caminho do bodhisattva. No entanto, uma leitura mais atenta revela algo mais profundo: trata-se de um trabalho sistemático sobre a mente, que pode ser compreendido, em termos contemporâneos, como uma forma refinada de psicoterapia contemplativa — com notáveis ressonâncias com aquilo que a psicologia profunda chamou de trabalho com a sombra. Essa aproximação, porém, exige cuidado. O texto de Shāntideva não pode ser reduzido a uma técnica terapêutica moderna, nem sua finalidade é o fortalecimento do eu. Ainda assim, ele opera diretamente sobre os mesmos territórios psíquicos que a psicoterapia moderna reconhece como decisivos: a negação, a dissociação, a projeção e a autojustificação. A diferença está no horizonte último que orienta esse trabalho. O segundo capítulo começa onde muitas abordagens espirituais ...

A Purificação no Bodhicharyāvatāra: A Confissão

No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, os versos que tratam da confissão marcam um ponto de inflexão decisivo no percurso contemplativo delineado por Śāntideva. Após a mente ter sido gradualmente suavizada pelas oferendas, descentralizada pela homenagem e reorientada pelo refúgio, torna-se finalmente possível um encontro direto com a negatividade acumulada — não como objeto de julgamento moral, mas como fenômeno a ser compreendido, exposto e dissolvido. A confissão, nesse contexto, não é um ritual de culpa, mas um gesto de lucidez radical que visa purificar o contínuo mental ao romper o pacto silencioso com a repetição do sofrimento. Confessar, aqui, significa retirar as ações negativas do estado de latência psíquica no qual continuam operando de modo invisível. Śāntideva parte de um reconhecimento fundamental: enquanto as faltas permanecem ocultas — seja por negação, racionalização ou esquecimento deliberado — elas conservam intacto o seu poder causal. A mente que não o...

A Purificação no Bodhicharyāvatāra: A Homenagem e o Refúgio

No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, após o longo e cuidadoso treinamento da mente por meio das oferendas, Śāntideva conduz o praticante a dois gestos que aprofundam decisivamente o processo de purificação interior: a homenagem e o refúgio. Ambos podem ser lidos, em um primeiro nível, como práticas devocionais tradicionais; contudo, numa leitura contemplativa mais atenta, revelam-se como operações sutis de deslocamento da identidade e de reorientação radical da confiança existencial. Se as oferendas enfraquecem o apego à posse e ao controle, a homenagem e o refúgio desestabilizam o apego ainda mais profundo ao ponto de vista autocentrado a partir do qual o mundo é interpretado. A homenagem, expressa sobretudo na prática das prostrações, não visa engrandecer os Budas, o Dharma ou a Sangha. Ela atua diretamente sobre a estrutura do ego, expondo sua fragilidade fundamental. Prostrar-se é permitir que o corpo ensine à mente aquilo que a mente resiste em admitir: qu...

A Purificação no Bodhicharyāvatāra: As Oferendas

No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado “A Confissão das Ações Negativas”, Śāntideva inicia a exposição do processo de purificação do continuum mental por meio de uma prática que, à primeira vista, pode parecer ritualística, mas que revela, em profundidade, uma sofisticada pedagogia da transformação interior: a prática das oferendas.  Antes de qualquer confissão explícita ou reconhecimento direto das ações negativas, o texto conduz o praticante a um deslocamento silencioso do eixo da experiência — do “eu” que se apropria, calcula e protege, para uma mente que se abre, se esvazia e se oferece. As oferendas, nesse contexto, não são dirigidas a satisfazer necessidades dos Budas, mas a desarticular as estruturas sutis do apego que sustentam a identidade egocentrada. Ao oferecer aquilo que lhe pertence, o praticante confronta a ilusão de posse; ao oferecer o que não pertence a ninguém, ele afrouxa ainda mais a crença em um “meu” que se estende sobre o mundo; ao ...

A Bodhichitta no Bodhicharyāvatāra: Sua Excelência e Benefícios

O primeiro capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado “A Excelência e os Benefícios da Bodhichitta”, inaugura a obra de Śāntideva estabelecendo o eixo fundamental de todo o caminho do bodhisattva. Antes de indicar práticas, disciplinas ou métodos, Śāntideva nos convida a um deslocamento interior decisivo: a reorientação da motivação.  O caminho do bodhisattva nasce quando a vida deixa de girar em torno da autopreservação, do medo e do desejo egoísta, e passa a ser animada por uma intenção que abraça, sem exceção, todos os seres. Essa intenção é a bodhichitta, a mente desperta que deseja a iluminação não como conquista pessoal, mas como resposta compassiva à condição universal do sofrimento. Ao iniciar sua exposição com a homenagem aos seres iluminados e plenamente realizados, Śāntideva situa esse caminho numa continuidade viva de sabedoria. A bodhichitta não é fruto de idealismo abstrato nem de um impulso emocional passageiro, mas a essência do despertar tal como foi rec...

Bodhicharyāvatāra: Um Mapa Vivo do Caminho do Bodhisattva

Este ensaio serve como porta de entrada para uma série dedicada  ao Bodhicharyāvatāra, na qual a obra será explorada tanto em seu aspecto filosófico quanto em suas implicações práticas. Longe de ser apenas um texto antigo, O Caminho do Bodhisattva permanece um guia vivo — um mapa precioso para todos aqueles que aspiram a unir lucidez, ética e compaixão no coração da existência. Bodhicharyāvatāra consta entre os grandes textos do budismo Mahāyāna, poucos exercem uma influência tão profunda, duradoura e transformadora quanto o Guia para o Caminho do Bodhisattva. Composto no século VIII pelo mestre indiano Śāntideva, este tratado em versos não é apenas uma obra filosófica de rara sofisticação, mas um verdadeiro manual prático para a transformação da mente e do coração. Mais do que explicar conceitos, o Bodhicharyāvatāra ensina a viver o Dharma. Ele orienta o praticante passo a passo na geração da bodhichitta — a mente do despertar — e no treinamento da conduta altruísta do...