Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além metafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade ( ...
O caso do cão Orelha, vítima de violência absurda perpetrada por jovens em Florianópolis, não é apenas mais um episódio de crueldade contra um animal indefeso; funciona como um espelho desconfortável daquilo que pode emergir quando a mente humana perde suas referências éticas mais básicas. A comoção pública é legítima, mas, à luz do budismo mahāyāna — e em particular do Bodhicharyāvatāra de Śāntideva —, esse tipo de acontecimento também nos convoca a uma investigação mais profunda: não para relativizar a violência nem dissolver responsabilidades, mas para compreender que o sofrimento ali exposto não se limita à vítima visível. Diante de um ato extremo de crueldade, a mente comum tende a buscar rapidamente uma divisão óbvia: de um lado a vítima inocente, de outro o algoz monstruoso. Essa separação é psicologicamente compreensível, mas, segundo Śāntideva, ainda pertence a uma visão incompleta da realidade. O caminho do bodhisattva começa exatamente onde essa ...