A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além metafísico, mas à emergência da sabedoria (prajñā) que reconhece a vacuidade (śūnyatā) de todas as coisas. A conhecida fórmula da Prajñāpāramitā — “a forma é vacuidade, e a vacuidade é forma” — exprime exatamente esse ponto: não há dois planos de realidade, mas uma única realidade percebida de modos distintos.
Essa inflexão redefine o sentido da travessia. Nos textos antigos, como o Alagaddūpama Sutta (MN 22), o Dharma é comparado a uma jangada utilizada para cruzar um rio perigoso. O ensinamento, porém, já contém uma advertência crucial: após a travessia, a jangada deve ser abandonada. O Mahāyāna leva essa advertência às últimas consequências. O Dharma não é um corpo doutrinário fechado e especulativo, mas uma filosofia pragmática dotada de uma psicotecnologia do despertar, destinada a desfazer apegos — inclusive o apego ao próprio ensinamento. A travessia não culmina em uma nova posição estável, mas na dissolução da necessidade de posições.
Nesse contexto, samsara e nirvana deixam de ser compreendidos como polos opostos. Eles designam o mesmo campo fenomenal apreendido sob regimes diferentes de compreensão e percepção. Quando a ignorância estrutura a experiência, fala-se em samsara; quando a vacuidade é reconhecida, fala-se em nirvana. Não há passagem de um mundo a outro, mas uma reconfiguração da maneira como se percebe a realidade. A Outra Margem revela-se, assim, como imanente ao próprio fluxo de uma existência condicionada e interdependente.
A ética do bodhisattva emerge diretamente dessa visão. Se não há separação última entre eu e outro, entre sujeito e mundo, então a libertação não pode ser concebida como um evento privado. A bodhicitta — a aspiração ao despertar para o benefício de todos os seres — não é um acréscimo moral externo à sabedoria, mas sua consequência lógica. Reconhecer a interdependência implica assumir responsabilidade por ela. O bodhisattva não abandona o rio após vislumbrar a Outra Margem; ele permanece no fluxo, agora sem ilusão, transformando a própria condição samsárica em campo de prática compassiva.
Por fim, como todo upaya, a metáfora da Outra Margem revela seu caráter provisório. Ao cumprir sua função pedagógica, ela se desfaz. Não há, em sentido último, duas margens nem uma travessia a ser completada. O que havia era uma forma equivocada de apreender a experiência. Quando essa apreensão cessa, a Outra Margem mostra-se sempre presente — não como um destino alcançado, mas como a clareza silenciosa que emerge quando a verdadeira natureza da mente se revela.
Este blog nasce da convicção que o budismo não é apenas um corpo de doutrinas, mas uma arte de ver e viver, uma disciplina da mente capaz de transformar a forma como habitamos o mundo, um meio hábil que viabiliza o despertar para uma nova realidade.
Entretanto, Vislumbres da Outra Margem não é um espaço de apologia religiosa nem de exegese acadêmica, mas um campo de investigação reflexiva, onde a tradição budista é tomada como caminho vivo, crítico e transformador.
A metáfora da Outra Margem orienta este blog. Não como promessa de evasão ou transcendência abstrata, mas como possibilidade de uma mudança de visão, com repercussões diretas na forma como vivemos na Margem de Cá.
Inspirado sobretudo pelo Mahāyāna e pelos ensinamentos da Prajñāpāramitā, este blog parte do entendimento de que samsara e nirvana não designam dois mundos distintos, mas duas maneiras de perceber o mesmo mundo. A travessia não é espacial; é cognitiva, ética e existencial.
Os textos aqui publicados dialogam com sutras, comentários clássicos, tradições contemplativas e filosofia contemporânea, sem submissão dogmática nem ecletismo superficial. O compromisso é com a fidelidade ao espírito do Dharma e profundo respeito pelas Três Joias, reconhecendo o budismo como tradição viva.
Mesmo respeitando o arcabouço tradicional, aqui se dará ênfase ao budismo como psicotecnologia do despertar, como ontologia não substancialista, como ética da interdependência e como prática de descentramento e transcendência do eu.
Este espaço valoriza uma forma de escrita que pensa enquanto caminha, que não oferece respostas fechadas, mas acompanha processos de clareza gradual. Cada texto é um exercício de travessia parcial, um lampejo, um vislumbre — consciente de que a sabedoria não se acumula, mas se revela e renova a cada olhar que se torna menos reativo e mais amplo.
Vislumbres da Outra Margem dirige-se a leitores que não buscam conforto espiritual, mas clareza honesta; não sistemas fechados, mas abertura; não a segurança das margens fixas, mas a coragem de observar e seguir o fluxo.
Assim, motivado por um dos ensinamentos mais sublimes e inspiradores do Mahāyāna — a certeza que no coração de cada ser há um Buda que ainda não abriu os olhos —, espero que cada postagem deste blog seja um convite para perceber a Outra Margem, mesmo que por instantes, não como um lugar a alcançar, mas como uma abertura que se insinua no próprio viver.
Em 2011, depois de mais de uma década dedicada aos trabalhos teosóficos em prol da fraternidade universal e da livre busca da verdade, tomei a difícil decisão de solicitar o meu desligamento da Sociedade Teosófica no Brasil. Foram anos de grande aprendizado, não somente no campo da filosofia esotérica, mas principalmente na convivência fraterna com amigos espirituais imbuídos de um mesmo ideal superior. Entretanto, havia chegado o momento em que a Teosofia não fazia mais sentido como caminho, pois sentia-me atraído por uma imersão em uma tradição viva. O estudo meramente especulativo das grandes cosmogonias mundiais, associado à práticas espirituais destituídas de seu contexto original, oferecidos pela ST, não satisfaziam mais às minhas necessidades interiores.
Em 2014, acometido por uma crise pessoal devastadora, deflagrada por um problema de saúde, fui obrigado a reavaliar minhas prioridades existenciais. Paradoxalmente, tudo parecia estar bem: família, trabalho e amigos. Ainda assim, nada mais fazia sentido: nem o caminho, nem o caminhante, nem o próprio caminhar. A visão de mundo que eu havia construído com tanto esforço e fervor revelou-se frágil, excessivamente mental. Eu havia compreendido muitas coisas, mas não as havia realizado. Faltava-me a experiência direta, encarnada, que pudesse sustentar aquilo que eu pensava saber sobre o eu e sobre a realidade.
Em março de 2015, após um período de profundo sofrimento psicológico, compreendi que estava atravessando aquilo que muitas tradições espirituais descrevem como a noite escura da alma. Com o apoio atento, ético e profundamente humano de um psicoterapeuta qualificado — um verdadeiro conhecedor das profundezas da psique — vivi experiências transpessoais libertadoras. Elas me permitiram tocar uma dimensão atemporal da realidade e reconhecer as raízes kármicas antigas, silenciosas, das dores que eu carregava nesta existência. Não se tratava de revelações espetaculares, mas de deslocamentos sutis e irreversíveis: a percepção de que muito do que eu chamava de “eu” era apenas história acumulada, medo cristalizado, identidade defensiva.
Em 2017, após 2 anos de psicoterapia transpessoal, senti a necessidade de dar voz a essas experiências. Assim nasceu o blog Além da Crença (alem-da-crenca.blogspot.com), não como um espaço de ensino ou autoridade espiritual, mas como um território de testemunho honesto — uma tentativa de nomear o indizível sem transformá-lo em dogma. Desde sua abertura inaugural, o blog foi marcado por uma citação do Sutra dos Kālāmās, aquele ensinamento radical em que o Buda convida à desconfiança lúcida: não aceitar algo por tradição, autoridade, escrituras ou lógica aparente, mas apenas quando, pela própria experiência, se reconhece que algo conduz à lucidez e à diminuição do sofrimento.
Além disso, o blog foi profundamente influenciado por dois pensadores originais que convergem na defesa de uma espiritualidade transreligiosa, que prioriza a experiência mística e o diálogo intercultural em vez de dogmas institucionais, buscando uma transformação integral da consciência frente à crise do mundo moderno: Raimon Panikkar e Vicente Merlo. Ambos compartilham uma visão cosmoteândrica, onde as dimensões divina, humana e cósmica são indissociáveis, exigindo um engajamento prático com questões ecológicas e sociais. Diante da crise de valores da modernidade, os pensadores propõem uma metanoia — uma transformação da consciência que utiliza o silêncio e a meditação como ferramentas para acessar o Mistério, integrando a sabedoria ancestral das tradições religiosas à psicologia contemporânea e ao pensamento crítico.
Dois anos depois, em 2019, movido pelo fascínio por fenômenos anômalos e estados ampliados de consciência, criei um segundo blog: A Lei do Uno (lei-do-uno.blogspot.com). Naquele período, eu estava profundamente envolvido com a ideia de uma transição planetária iminente. A pandemia do coronavírus pareceu confirmar minhas intuições: tudo indicava que um velho ciclo se encerrava e que um novo estava prestes a emergir. Acreditei que vivíamos as dores do parto de uma humanidade transfigurada, que a Kali Yuga se dissolvia para dar lugar a uma nova era de luz. Havia sinceridade nesse impulso, mas também — como mais tarde se tornaria evidente — um refúgio sutil do ego em narrativas grandiosas.
Com o tempo, essa clareza se impôs de forma inevitável: eu havia sido novamente capturado pelas armadilhas sofisticadas da mente egoica. Percebi como o ego não sobrevive apenas em desejos grosseiros ou identidades banais, mas também — e talvez sobretudo — em construções espirituais elevadas. Ideias de redenção coletiva, saltos evolutivos e cosmologias sublimes funcionavam como proteções contra o contato direto com a vulnerabilidade essencial da condição humana.
Mais uma vez, não eram as ideias o problema, mas o apego a elas; uma verdadeira compulsão por novas ideias, por modelos sofisticadas da realidade. Era fundamental unir teoria e prática, de forma equilibrada, ancorado numa tradição viva, que desse suporte à vivências profundas sobre a natureza da realidade.
Além disso, compreendi que o perigo maior para o buscador espiritual sincero não está em priorizar uma abordagem intelectual à espiritualidade, mas em adiar indefinidamente o processo de transformação interior, enquanto os venenos mentais continuam ativos, solapando a sua liberdade de escolha.
Neste sentido, avaliar um caminho exige comprometimento com as práticas deste caminho, não dependendo exclusivamente da opinião de terceiros e muito menos de elucubrações filosóficas, mas sim, experiência em primeira mão. Pois, nenhum método serve para todos e nenhuma tradição existe fora de um contexto histórico e humano específico. No entanto, o critério é simples e rigoroso: os venenos diminuem? A compaixão aumenta? Se sim, o caminho é adequado.
Outro ponto importante foi perceber que misturar métodos de diferentes tradições, indiscriminadamente, como feito em muitas vertentes do movimento Nova Era, pode gerar confusão em vez de liberdade. Assim, a prática espiritual exige continuidade e profundidade. Abandonar constantemente um caminho quando surgem dificuldades é apenas circular em torno da montanha do despertar. A espiritualidade autêntica reduz os venenos; não os intensifica.
A relação com um mestre espiritual é fundamental, mas deve ser examinada com lucidez. Um verdadeiro professor encarna os ensinamentos que transmite. A confiança não nasce da devoção cega, mas da transformação concreta da mente do aluno. Quando isso ocorre, a relação se torna um campo fértil de crescimento mútuo. O objetivo nunca são experiências extraordinárias, mas a mudança gradual e irreversível da orientação interior: menos ego, mais abertura; menos medo, mais clareza.
Por fim, foi importante considerar que nada disso exige abandonar a vida cotidiana. Pelo contrário, é precisamente nela que o treino se torna real. A realização não depende de cenários extraordinários, mas de uma fidelidade diária ao trabalho interior. Quando a mente é treinada, a vida comum deixa de ser um obstáculo e se revela como o próprio caminho. A prática não está restrita a posturas formais. Ela acontece na fila do mercado, no trânsito, no banho, ao lavar pratos. Quanto mais frequente, mais eficaz.
Foi nesse contexto que, em novembro de 2024, retornei ao Budismo com um interesse qualitativamente distintivo. Não como quem busca mais um sistema explicativo, mas como quem reconhece a necessidade de um caminho de treinamento da mente e transcendência do ego. Inspirado pelos ensinamentos de Lama Rinchen Gyaltsen, concluí em 2025 o curso 'Entrenamiento Mental Integral' pela Fundación Sakya da Espanha, com foco na prática de Lojong. Atualmente, aprofundo meus estudos na filosofia budista por meio do Programa Dharma Chakra, sendo que considero o Lama Rinchen como o meu mestre espiritual.
Lama Rinchen Gyaltsen é um renomado mestre budista da tradição Sakya, amplamente reconhecido por sua habilidade em traduzir a profundidade da filosofia tibetana para uma linguagem clara, prática e acessível ao público ocidental. Como diretor da Fundación Sakya e do Centro de Retiros Paramita, na Espanha, ele lidera programas de formação rigorosos, unindo a erudição clássica do Mahayana e Vajrayana com uma pedagogia moderna. Sua presença digital, especialmente através de palestras e cursos gratuitos, transformou-o em uma das principais referências contemporâneas para o estudo do Budismo em língua espanhola e portuguesa, inspirando milhares de praticantes a integrar a sabedoria e a compaixão em suas vidas cotidianas.
Paralelamente, no mesmo período, tive o privilégio de conhecer uma unidade do Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Florianópolis, Santa Catarina, onde fui acolhido pela sangha e encontrei, nos estudos e meditações semanais — especialmente na contemplação de As Palavras do Meu Professor Perfeito, de Patrul Rinpoche — um espaço vivo de escuta e amadurecimento interior. O Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB) foi fundado em 1986, em Porto Alegre, pelo Lama Padma Samten, discípulo de Chagdud Tulku Rinpoche, mestre da tradição Nyingma do Budismo Tibetano. A organização possui diversos centros e grupos de estudo em todo o Brasil.
Vale enfatizar que esta reaproximação ao Budismo foi um momento decisivo de inflexão existencial, pois o caminho budista revelou-se, de pronto, como um genuíno Upaya Supremo. Supremo, não no sentido de proclamar verdades finais ou ser um caminho superior aos demais, mas por sua capacidade insuperável de desmontar sistematicamente a tendência da mente a absolutizar qualquer formulação — inclusive as budistas. A vacuidade (śūnyatā) não é uma nova metafísica, mas um antídoto contra toda metafísica. Ela impede que conceitos se solidifiquem em crenças identitárias e preserva o caminho como processo vivo, aberto e compassivo.
No Budismo, upaya — meios hábeis — não designa uma técnica isolada, mas uma atitude radical diante da verdade. Todo ensinamento é provisório, contextual, relacional. Seu valor não reside em sua coerência lógica nem em sua beleza simbólica, mas em sua capacidade concreta de reduzir o sofrimento e dissolver o apego. O Dharma não é algo em que se acredita, mas algo que se pratica, se testa e, quando necessário, se abandona. Até mesmo os ensinamentos do Buda são apresentados como instrumentos: balsas para atravessar o rio, não ídolos a serem carregados após a travessia.
Essa constatação não conduz ao niilismo, mas ao colapso da necessidade psicológica de se proteger por narrativas fixas. Quando crenças caem, não resta um vazio estéril, mas a possibilidade de um contato mais direto com a experiência: com a impermanência, a insatisfatoriedade, a interdependência e, paradoxalmente, com uma compaixão menos idealizada e mais encarnada.
É nesse ponto que o ideal do bodhisattva se apresenta como a expressão mais madura desse upaya. O bodhisattva não abandona crenças para habitar um silêncio privado, mas, ao reconhecer a vacuidade do eu e dos fenômenos, escolhe permanecer no mundo do sofrimento por compaixão. Sua ética não se apoia em mandamentos absolutos, mas em uma sensibilidade afinada pela compreensão profunda da interdependência.
E é exatamente nesse ponto que a ideia de upaya supremo deixa de ser um conceito budista e se torna uma postura existencial: usar forma sem se aprisionar à forma, usar linguagem sem confundir linguagem com verdade, usar o caminho sem transformar o caminho em identidade.
Por isso, paradoxalmente, o verdadeiro upaya se revela quando já não precisamos mais chamá-lo de supremo, pois o método se torna dispensável ao tornar-se a própria expressão do despertar, uma manifestação pura e sábia de um coração radiante.
Portanto, transcorridos mais de vinte anos desde a minha visita ao templo budista fundado por Chagdud Rinpoche, reconheço hoje, com humildade e gratidão, que o Budismo não é apenas uma afinidade intelectual a ser reconhecida, mas o caminho que faz sentido ser trilhado nesta vida — e, se houver condições auspiciosas, nos próximos renascimentos humanos preciosos.
E é a partir desse longo percurso — feito de buscas sinceras, ilusões necessárias, quedas instrutivas e constatações pragmáticas — que emerge o novo blog Vislumbres da Outra Margem: não como negação do que veio antes, mas como seu amadurecimento natural — um espaço dedicado ao Budismo vivido, contemplado e praticado, onde os ensinamentos são tratados como meios hábeis e não como verdades a serem cegamente defendidas.
Luiz Cláudio.

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