Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além mertafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade (...
O século XX foi marcado por grandes promessas. A ciência parecia destinada a libertar definitivamente a humanidade da ignorância. A industrialização prometia prosperidade para todos. A democracia era apresentada como o caminho inevitável para a paz, enquanto diferentes projetos econômicos e políticos disputavam entre si a promessa de construir uma sociedade mais justa. No entanto, à medida que o século avançava, guerras mundiais, crises ambientais, desigualdades persistentes e um crescente vazio existencial revelaram uma realidade desconcertante: o progresso técnico não havia sido acompanhado por um progresso equivalente da consciência humana. Essa constatação levou inúmeros pensadores a diagnosticar a crise da modernidade como uma crise das instituições, dos sistemas econômicos ou das estruturas políticas. Entretanto, uma discreta linhagem do Zen Sōtō japonês começou a formular uma hipótese muito mais profunda. Talvez a verdadeira crise da civilização não estivesse, em pri...