Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além mertafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade (...
A história do budismo pode ser vista, sob uma determinada perspectiva, como o aprofundamento progressivo de uma mesma intuição fundamental: a dissolução da separação ilusória entre eu, mundo e consciência. Desde os ensinamentos do Sidharta Gautama até as formulações contemplativas do Dzogchen, o fio invisível que atravessa toda a tradição budista é a investigação da experiência humana até o ponto em que toda dualidade perde sua solidez. Contudo, essa evolução não ocorreu como uma simples substituição de doutrinas antigas por novas filosofias. O que aconteceu ao longo dos séculos foi um refinamento gradual da linguagem, da análise filosófica e dos métodos contemplativos usados para apontar para algo que, segundo a própria tradição, sempre esteve presente desde o início: a natureza desperta da mente. Nos ensinamentos mais antigos preservados no cânone pāli, o Buda histórico raramente falava em termos de “não dualidade” nos termos que se tornariam comuns posteriormente no Maha...