Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além mertafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade (...
“Se, ao confiar em alguém, os defeitos desaparecem e as qualidades aumentam como a lua crescente, a prática dos bodhisattvas consiste em venerar esse mestre espiritual ainda mais do que o próprio corpo.” A sexta prática dos Bodhisattvas apresenta um complemento natural à prática anterior. Se a quinta prática nos convida a reconhecer e criar distância de influências que despertam estados mentais aflitivos, a sexta nos ensina a aproximar-nos conscientemente daquelas pessoas cuja presença favorece o florescimento da sabedoria, da compaixão e da virtude. O texto afirma que, quando confiamos em alguém que nos ajuda a dissipar nossos defeitos e aumentar nossas qualidades, devemos valorizar essa pessoa ainda mais do que o próprio corpo. À primeira vista, essa afirmação pode parecer exagerada, mas ela aponta para uma compreensão profunda sobre a natureza da transformação humana: aquilo que molda nossa mente determina a qualidade de toda a nossa experiência de vida. Uma das ide...