Para muitos, renunciar parece significar afastar-se do mundo com dureza, suprimir emoções ou cultivar uma espécie de frieza moral diante da experiência. No entanto, à luz dos ensinamentos do Bodhicaryāvatāra, de Shantideva, especialmente no capítulo 6, que trata da prática da paciência (kṣānti), torna-se claro que a renúncia autêntica não nasce da aversão, mas da aceitação sábia e compassiva do samsara. É crucial, contudo, não confundir essa aceitação com uma resignação passiva ou indiferença moral. A aceitação no caminho do Bodhisattva é um ato de realismo radical: trata-se de reconhecer a configuração presente de causas e condições sem a distorção da negação. Enquanto a passividade se submete ao dano por desamparo, a aceitação lúcida acolhe a realidade do momento para transformá-la. Assim, a paciência não é um 'sim' ao abuso ou à injustiça, mas um 'sim' à clareza necessária para responder a eles sem ser intoxicado pelo mesmo veneno que se deseja combater....
Reflexões Sobre o Despertar