A modernidade nos legou um mundo sem garantias metafísicas. Deus silenciou, as essências foram questionadas, os fundamentos tornaram-se instáveis. Nesse cenário, o existencialismo — especialmente em Sartre — formulou uma das respostas mais corajosas à condição humana: não há sentido dado; cabe a nós criá-lo. A existência precede a essência. Estamos condenados à liberdade.
Diante da ausência de propósito inscrito na estrutura do real, o ser humano é chamado a escolher, a projetar, a assumir responsabilidade total por aquilo que faz de si mesmo. A angústia, nesse contexto, não é patologia, mas lucidez. É o preço da liberdade radical.
Essa posição possui uma dignidade inegável. Ela recusa a fuga, denuncia a má-fé, desmonta a tentação de esconder-se atrás de papéis fixos ou determinismos confortáveis. Contudo, há uma pergunta que permanece quase silenciosa no interior dessa posição filosófica: quem é exatamente esse “nós” que precisa criar sentido? Quem é o sujeito que sustenta a liberdade e carrega o peso da responsabilidade?
É aqui que o diálogo com o budismo se torna fecundo. O budismo concordaria com o existencialismo em um ponto decisivo: não há essência fixa, não há natureza intrínseca que determine o que somos. Tudo é impermanente, interdependente, vazio de substância própria. Mas a investigação budista não se detém na ausência de essências; ela avança na direção do próprio sujeito que vivencia essa ausência. Se não há essência nas coisas, haveria ao menos uma essência naquele que escolhe?
A prática contemplativa desloca a discussão do plano puramente conceitual para o plano experiencial. Quando se observa diretamente o surgimento de um pensamento, o impulso de uma decisão, a emergência de uma emoção, procura-se o centro que comanda. Onde está aquele que escolhe? Onde está o autor da ação?
O que se encontra, repetidamente, é apenas uma sucessão cíclica de processos: sensações, memórias, condicionamentos, linguagem e intenção surgindo interdependentemente. O “eu” aparece como uma convenção funcional, uma narrativa que organiza a experiência, mas não como uma entidade sólida e autônoma.
Se isso for levado a sério, a pergunta sobre o sentido ganha outra tonalidade. Talvez a busca por sentido não seja apenas uma expressão da liberdade humana, mas também uma resposta da estrutura egóica — da necessidade de continuidade narrativa, de coerência identitária, de segurança diante da impermanência. O sentido, nesse caso, não é apenas criação; é também consolidação. Ele estabiliza a história que contamos sobre nós mesmos.
Para o existencialismo, criar sentido é afirmar a própria liberdade diante do vazio. Para o budismo, a necessidade compulsiva de criar sentido pode ser vista como uma forma refinada de apego. Não apego a objetos materiais, mas apego à própria identidade. Apego à ideia de que a vida precisa significar algo para alguém. Não se trata de negar o valor relativo dos compromissos, dos projetos ou das escolhas éticas. No nível convencional, tudo isso é legítimo e necessário. A questão é outra: existe realmente um centro fixo que precise ser sustentado por um significado último?
Sartre interpreta a angústia como condição estrutural da liberdade. O budismo, por sua vez, a compreende como fruto da ignorância — não no sentido moral, mas cognitivo — a suposição não examinada de que há um “eu” sólido que precisa carregar o mundo. Se esse “eu” não é encontrado como entidade fixa, a liberdade não desaparece; o que desaparece é o peso dramático da autoria. Há ação, mas não um autor substancial. Há escolha, mas não um centro independente que a possua. A ausência de fundamento permanece, mas a angústia se transforma. O vazio deixa de ser ameaça e revela-se como abertura.
Uma objeção imediata surge: sem um eu forte, a ética não colapsaria? Curiosamente, a experiência contemplativa sugere o contrário. Quando a fixação identitária enfraquece, a separação rígida entre “eu” e “outro” também enfraquece. A compaixão não precisa ser imposta como dever heroico; ela emerge como resposta natural da interdependência. A ação ética continua — talvez até se aprofunde — mas já não precisa ser sustentada por uma narrativa de autoafirmação.
Nesse ponto, a pergunta inicial pode receber uma resposta paradoxal. Sim, a busca compulsiva por sentido pode ser uma necessidade do ego, entendida como a necessidade de manter uma noção estável de si mesmo. Mas quando essa necessidade relaxa, a vida não se torna vazia de valor. Ao contrário, ela se torna livre da obrigação de orientar-se continuamente em busca de um sentido que justifique um viver de forma autocentrada. No entanto, sem as exigências de um ego teleológico, o viver prossegue, as escolhas prosseguem, o cuidado prossegue, a responsabilidade prossegue — porém sem a tensão de um autor que precise garantir ontologicamente um sentido para aquilo que é, em sua natureza, fluxo.
O existencialismo chega à beira do abismo e afirma que devemos criar sentido. O budismo olha para o mesmo abismo e investiga quem é aquele que precisa criar o sentido. Se o criador não é encontrado como entidade fixa, o drama se desfaz. Não em apatia, não em niilismo, mas em leveza. A liberdade deixa de ser condenação e torna-se fluidez. O vazio deixa de ser falta e revela-se como plenitude.
Talvez a verdadeira radicalidade não esteja em assumir heroicamente a ausência de sentido, mas em descobrir, paradoxalmente, que a liberdade não precisa de um eu para ser exercida. Nesse ponto, o diálogo entre budismo e existencialismo deixa de ser confronto e torna-se convite. Não a adotar uma tese, mas a investigar diretamente a experiência que chamamos de “eu”. Porque, no fim, a questão não é se a vida tem sentido ou não, mas se aquele que exige sentido pode ser encontrado como algo mais do que uma história contada sobre o fluxo da realidade.
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