Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2025

Da Crença à Experiência

"Não se satisfaçam com ouvir dizer, ou com a tradição, ou com o conhecimento das lendas, ou com o que nos dizem as escrituras, conjeturas ou inferências lógicas, ou em pesar as evidências, ou com a predileção por um ponto de vista depois de ter ponderado sobre ele, ou com a habilidade de alguma outra pessoa, ou em pensar 'O monge é nosso mestre'. Quando souberem por si próprios: 'Tais coisas são sadias, irrepreensíveis, recomendadas pelos sábios, e adotá-las e colocá-las em prática conduzem ao bem-estar e à felicidade', então vocês deveriam praticá-las e nelas repousar."   O Kālāma Sutta ocupa um lugar singular no cânone budista por apresentar, de forma direta e surpreendentemente moderna, uma pedagogia da investigação crítica e da responsabilidade ética. Nele, o Buda se dirige aos Kālāmas, um clã que vivia em meio a um ambiente intelectual marcado por disputas doutrinárias, no qual mestres espirituais, ascetas e filósofos defendiam visões contradi...

Os Três Princípios do Budismo

Quando se fala dos Três Selos do Dharma, é possível confundi-los como fundamentos metafísicos do budismo. No entanto, essa leitura, embora compreensível, pode obscurecer aquilo que os selos, ou marcas, expressam de modo mais próprio e característico. Mais do que uma teoria sobre a estrutura última da realidade, os Três Selos funcionam como princípios norteadores dos ensinamentos e práticas budistas. Eles não pretendem explicar “o que a realidade é em si”, mas indicar como a experiência do samsara deve ser esmiuçada e compreendida. Os Três Selos — impermanência (anicca), insatisfatoriedade ou sofrimento (duḥkha) e não-eu (anātman) — também são utilizados para reconhecer se uma ideia ou pensamento pertence ao Dharma autêntico ou não. Nesse sentido, os selos não são proposições especulativas, mas chaves de interpretação da experiência.  A impermanência, primeiro selo, não é apresentada como uma tese filosófica abstrata, mas como uma constatação a ser contem...

Colocando a Roda do Dharma em Movimento

Os Três Giros da Roda do Dharma são uma forma tradicional — especialmente nas escolas Mahāyāna — de organizar o vasto conjunto de ensinamentos atribuídos ao Buddha Shākyamuni. Junto com os Três Treinamentos Superiores — ética (śīla), meditação (samādhi) e sabedoria (prajñā) — constituem o eixo estruturante do caminho para a libertação. À medida que os ensinamentos se aprofundam nos chamados Três Giros da Roda do Dharma, os próprios treinamentos são progressivamente reinterpretados, refinados e reorientados à luz de visões cada vez mais sutis sobre a realidade, a mente e o despertar.  No Primeiro Giro da Roda do Dharma, inaugurado com o ensinamento das Quatro Nobres Verdades, os Três Treinamentos aparecem como um caminho essencialmente libertador. A ética é apresentada como disciplina comportamental: evitar ações prejudiciais, cultivar ações benéficas e estabilizar a vida para reduzir o sofrimento manifesto. Śīla funciona aqui ...

Aquilo Que Sempre Esteve Presente

O ato de soltar ocupa um lugar central no caminho espiritual, mas sua eficácia libertadora depende inteiramente da visão que o sustenta. Sem uma compreensão adequada da mente e da condição humana, soltar pode facilmente ser confundido com fuga, negação ou alienação. No budismo, o soltar autêntico repousa sobre uma premissa decisiva: a natureza da mente de todos os seres sencientes é inerentemente pura, similar à de um Buda, embora obscurecida por diversos véus.  Essa dimensão fundamental da mente, conhecida como natureza búdica ou tathāgatagarbha, não é algo a ser produzido, adquirido ou aperfeiçoado, mas algo a ser reconhecido e desvelado. Se não fosse pelo tathṛgatagarbha, os seres seriam incapazes de sentir aversão ao sofrimento ou de buscar o nirvana.  A afirmação da natureza búdica representa um momento crucial no desenvolvimento dos ensinamentos budistas. Ela desloca o eixo do caminho espiritual da fabricação de um estado ideal para o reconhecimento de um pot...

A Preciosa Insatisfação Humana

No budismo, uma das afirmações mais conhecidas — e frequentemente mal compreendidas — é a de que a vida é sofrimento. Ao mesmo tempo, os ensinamentos budistas insistem que o nascimento humano é precioso, raro e extraordinariamente valioso. À primeira vista, essas duas ideias parecem incompatíveis. Como algo marcado pela insatisfação crônica poderia ser, simultaneamente, considerado uma oportunidade excepcional? A tensão não é acidental: ela expressa uma pedagogia deliberada que visa deslocar o olhar comum, afastando-o tanto do apego ingênuo à vida quanto do desprezo niilista pela existência. Quando o budismo fala em sofrimento (duhkha), não se refere apenas à dor manifesta — doença, perda ou frustração —, mas a uma condição mais profunda: o fato de que tudo o que surge de causas e condições é impermanente, instável e incapaz de oferecer satisfação duradoura. Trata-se de um diagnóstico fenomenológico, ou seja, que pode ser experimentado diretamente por qualquer pesso...

A Outra Margem

Existe uma metáfora antiga e persistente no budismo: a travessia para a Outra Margem. Desde os primeiros ensinamentos, a imagem do rio aparece como forma de expressar uma prerrogativa básica — a de que a condição humana comum é marcada por um fluxo de ignorância, apego, aversão e sofrimento, e que existe a possibilidade de uma transformação radical do modo como esse fluxo é vivido. No entanto, no Mahāyāna , essa metáfora deixa de apontar para um deslocamento entre dois mundos e passa a operar como uma chave paradigmática: a Outra Margem não é um outro lugar, mas uma outra forma de ver. A margem deste lado não designa simplesmente o samsara entendido como um domínio distante da iluminação. Ela indica, antes, um regime de experiência estruturado pela reificação: tomamos os fenômenos, o eu e o mundo como entidades dotadas de existência própria e estável. A Outra Margem, por sua vez, não corresponde a um além metafísico, mas à emergência da sabedoria ( prajñā ) que reconhece a vacuidade ( ...