O primeiro capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado “A Excelência e os Benefícios da Bodhichitta”, inaugura a obra de Śāntideva estabelecendo o eixo fundamental de todo o caminho do bodhisattva. Antes de indicar práticas, disciplinas ou métodos, Śāntideva nos convida a um deslocamento interior decisivo: a reorientação da motivação.
O caminho do bodhisattva nasce quando a vida deixa de girar em torno da autopreservação, do medo e do desejo egoísta, e passa a ser animada por uma intenção que abraça, sem exceção, todos os seres. Essa intenção é a bodhichitta, a mente desperta que deseja a iluminação não como conquista pessoal, mas como resposta compassiva à condição universal do sofrimento.
Ao iniciar sua exposição com a homenagem aos seres iluminados e plenamente realizados, Śāntideva situa esse caminho numa continuidade viva de sabedoria. A bodhichitta não é fruto de idealismo abstrato nem de um impulso emocional passageiro, mas a essência do despertar tal como foi reconhecida e encarnada pelos buddhas e bodhisattvas. Ela emerge como herança espiritual e, ao mesmo tempo, como responsabilidade: assumir essa mente é tornar-se herdeiro de uma linhagem que transforma a própria existência em serviço ao despertar coletivo.
Essa convocação ganha urgência quando contemplamos a raridade e a fragilidade da vida humana dotada de condições favoráveis. Não se trata de um privilégio a ser celebrado com orgulho, mas de uma oportunidade delicada, que pode ser desperdiçada com extrema facilidade. A impermanência não ameaça apenas o corpo, mas também as condições internas que tornam possível o cultivo da virtude. Por isso, a contemplação da preciosidade desta vida não conduz à ansiedade, mas à sobriedade: um reconhecimento lúcido de que adiar o essencial é, muitas vezes, uma forma sutil de negligência espiritual.
É nesse contexto que a bodhichitta se revela como o princípio transformador central do caminho. Ela não é apenas uma virtude entre outras, mas a matriz que reorganiza todo o campo da experiência. Onde as ações virtuosas comuns são frágeis e facilmente sobrepujadas por hábitos nocivos profundamente enraizados, a bodhichitta introduz uma força de outra ordem. Ao unir compaixão ilimitada e sabedoria, ela enfraquece progressivamente até mesmo as tendências negativas mais intensas, não por repressão, mas por deslocamento do eixo da identidade. A mente deixa de operar a partir do estreito horizonte do “eu” e passa a responder a um campo de sentido muito mais amplo.
Desse deslocamento nasce uma felicidade que não depende de fontes externas. A bodhichitta é descrita como a raiz suprema da felicidade porque se baseia exclusivamente em causas não agressivas. Ela não promete prazer imediato, mas assegura uma coerência profunda entre meios e fins: onde não se semeiam causas de dano, não podem amadurecer frutos de dor. Assim, o bem-estar que dela emerge não é acidental, mas intencional.
Há ainda um aspecto silencioso e decisivo dessa mente: ela realiza simultaneamente o bem próprio e o bem dos outros. Aquilo que, no nível ordinário, parece um conflito — cuidar de si ou cuidar do mundo — dissolve-se quando a identidade deixa de ser pensada como entidade isolada. No entanto, essa potência não se revela num instante isolado de entusiasmo. A bodhichitta pede continuidade, cultivo, perseverança. Sem isso, permanece como inspiração nobre, mas ainda estéril.
No momento em que essa mente surge de forma autêntica, algo essencial se transforma. Não se trata apenas de receber um novo nome ou uma designação honorífica. O nascimento da bodhichitta marca uma mutação consciencial: a mente, antes prisioneira de suas próprias aflições, começa a libertar-se das grades invisíveis que a mantinham confinada. O verdadeiro samsara não é o mundo, mas a mente obscurecida; e é precisamente aí que a bodhichitta opera.
Por isso, as imagens tradicionais que a exaltam não são ornamentos poéticos, mas tentativas de apontar para sua potência singular. Ela é descrita como um elixir que transmuta o ordinário em precioso, como uma joia rara, como uma árvore que jamais se esgota, como uma força protetora e como um fogo capaz de consumir rapidamente faltas profundas. Todas essas metáforas convergem para uma mesma intuição: nenhuma outra disposição mental possui um poder transformador comparável.
Essa mente, contudo, manifesta-se em dois movimentos inseparáveis. Há o aspecto da aspiração, o desejo genuíno de alcançar a iluminação para o benefício de todos, e há o aspecto do engajamento, o compromisso efetivo de trilhar o caminho que conduz a essa meta. Desejar chegar não substitui o caminhar, mas caminhar sem direção dissolve-se em dispersão. A bodhichitta plena nasce da integração desses dois aspectos: uma motivação que sustenta o percurso e uma prática que encarna essa motivação no tempo.
A força singular da bodhichitta pode ser compreendida tanto pela autoridade da tradição quanto pela reflexão direta. Se ela é fundada no altruísmo e na não violência, então, por necessidade lógica, enfraquece as causas do sofrimento e fortalece as condições da felicidade. Ela atua precisamente onde o samsara se reproduz: na ignorância que distorce a percepção e na confusão que leva os seres a destruir aquilo que mais desejam proteger.
Nesse ponto, a bodhichitta revela sua natureza mais profunda como união de sabedoria e compaixão. A compaixão reconhece o sofrimento; a sabedoria reconhece suas causas. Separadas, ambas são insuficientes. Unidas, tornam-se uma força lúcida, capaz não apenas de aliviar dores imediatas, mas de conduzir os seres, gradualmente, para além das raízes do sofrimento.
Aqueles em quem essa mente amadureceu são chamados bodhisattvas. Sua singularidade não reside em feitos extraordinários, mas na estabilidade de uma intenção que não recua diante da adversidade. Mesmo quando encontram hostilidade, ingratidão ou dor extrema, não abandonam o caminho. Ao contrário, transformam essas condições em matéria-prima para o aprofundamento da paciência, da compaixão e da clareza. Por isso, tornam-se fontes confiáveis de refúgio: não oferecem apenas consolo temporário, mas apontam para uma libertação que não depende das circunstâncias.
Assim, o primeiro capítulo do Bodhicharyāvatāra estabelece o coração do Mahāyāna. Ao contemplar a grandeza da bodhichitta, o praticante é naturalmente conduzido a reconhecer os obstáculos internos que ainda impedem seu florescimento pleno. O louvor dessa mente não encerra o caminho; inaugura-o. Ele prepara o terreno para o movimento seguinte: a purificação sincera das condições que obscurecem a mente, para que essa intenção vasta, lúcida e compassiva possa realmente nascer, estabilizar-se e transformar a vida por inteiro.
NOTA: Ensaio inspirado nos ensinamentos ministrados por S. S. Sakya Trizin sobre o Caminho do Bodhisattva, no Centro Budista Sakya de Alicante, Espanha (Paramita.org). Quaisquer interpretações errôneas ou imprecisões na apresentação destes sublimes ensinamentos são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor deste blog.
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