No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, os versos que tratam da confissão marcam um ponto de inflexão decisivo no percurso contemplativo delineado por Śāntideva. Após a mente ter sido gradualmente suavizada pelas oferendas, descentralizada pela homenagem e reorientada pelo refúgio, torna-se finalmente possível um encontro direto com a negatividade acumulada — não como objeto de julgamento moral, mas como fenômeno a ser compreendido, exposto e dissolvido. A confissão, nesse contexto, não é um ritual de culpa, mas um gesto de lucidez radical que visa purificar o contínuo mental ao romper o pacto silencioso com a repetição do sofrimento.
Confessar, aqui, significa retirar as ações negativas do estado de latência psíquica no qual continuam operando de modo invisível. Śāntideva parte de um reconhecimento fundamental: enquanto as faltas permanecem ocultas — seja por negação, racionalização ou esquecimento deliberado — elas conservam intacto o seu poder causal. A mente que não olha diretamente para seus próprios condicionamentos permanece prisioneira deles. A confissão é, portanto, um ato de desvelamento, um movimento pelo qual aquilo que estava disperso e inconsciente é reunido sob a luz da atenção consciente.
Esse gesto, porém, só se torna genuinamente transformador porque está enraizado na visão da impermanência e da vacuidade. As ações negativas não são tratadas como marcas ontológicas indeléveis, nem como expressões de uma essência corrompida do sujeito. Pelo contrário, Śāntideva insiste na contingência de todos os atos e estados mentais: eles surgem de causas e condições e, justamente por isso, podem ser transformados. A confissão não fixa o eu em sua falha; ela o libera da identificação com ela. Ao reconhecer a negatividade como fenômeno condicionado, a mente começa a se separar da narrativa que a sustenta.
Há, nesse ponto, uma sutileza filosófica crucial. Diferente de modelos confessionais baseados na oposição rígida entre pecado e redenção, o Bodhicharyāvatāra propõe uma dinâmica não dual entre reconhecimento e dissolução. Não se trata de opor um “eu virtuoso” a um “eu faltoso”, mas de perceber que ambos são construções transitórias no fluxo do contínuo mental. A confissão atua justamente nesse intervalo: ela reconhece a negatividade sem reificá-la e aspira à purificação sem se apoiar em um ideal fixo de pureza.
O medo desempenha um papel ambíguo nessa prática. Śāntideva evoca, sem suavizações excessivas, as consequências do karma negativo, inclusive imagens intensas de sofrimento futuro. No entanto, esse medo não é mobilizado como instrumento de coerção moral, mas como catalisador da responsabilidade. O temor aqui não paralisa; ele desperta. Ao reconhecer que nenhuma ação se perde e que a causalidade ética é inexorável, a mente abandona a ingenuidade e assume uma postura madura diante de suas escolhas. O medo, quando atravessado pela sabedoria, transforma-se em urgência lúcida.
A confissão também implica um deslocamento temporal profundo. Ao confessar, o praticante revisita o passado não para fixar-se nele, mas para interromper sua continuidade automática no futuro. O reconhecimento sincero das ações negativas vem sempre acompanhado da resolução firme de não repeti-las. Essa resolução não é uma promessa voluntarista, sustentada pela força do ego, mas uma consequência natural da clareza adquirida. Quando a mente vê com nitidez as causas do sofrimento, a repetição perde seu poder de sedução. A ética emerge, assim, não como obrigação externa, mas como discernimento sobre o sofrimento.
Um elemento essencial da confissão é a confiança na eficácia da purificação. Śāntideva não apresenta a confissão como um gesto simbólico ou psicológico apenas, mas como uma prática com efeitos reais sobre o contínuo mental. A negatividade, por mais pesada que seja, não é infinita nem substancial; ela pode ser enfraquecida, neutralizada e, em última instância, esgotada. Essa confiança não se baseia em indulgência, mas na própria estrutura da realidade conforme compreendida pelo budismo: tudo o que é condicionado é transformável. A confissão é, nesse sentido, um ato de fé na impermanência.
Ao mesmo tempo, a prática preserva uma tensão saudável entre responsabilidade e compaixão. O praticante não transfere a culpa para forças externas, nem se absolve prematuramente. Ele assume integralmente suas ações, reconhecendo-as como suas, mas o faz diante dos Budas e bodhisattvas, isto é, no horizonte de uma compaixão que não condena. Essa presença simbólica impede que a confissão se degrade em auto aversão. Confessar é lembrar que a transformação é possível porque a natureza da mente não está esgotada por seus condicionamentos.
No interior do capítulo, a confissão prepara diretamente o surgimento da bodhichitta. Uma mente saturada de negação ou culpa não pode sustentar uma motivação altruísta estável. Ao purificar o passado, o praticante libera energia psíquica que antes estava aprisionada na defesa do eu. Essa energia, agora disponível, pode ser redirecionada para o cuidado com os outros. Assim, a confissão não é um desvio introspectivo no caminho do bodhisattva, mas uma condição necessária para que a compaixão não seja contaminada por conflitos não resolvidos.
Em última análise, a confissão no Bodhicharyāvatāra revela uma compreensão profundamente não moralista da transformação espiritual. O sofrimento não é superado por repressão nem por indulgência, mas por visão clara. Confessar é ver. E ver, nesse contexto, é deixar que a mente reconheça suas próprias sombras sem se identificar com elas. Quando isso ocorre, a negatividade perde sua opacidade, o futuro deixa de ser uma repetição do passado e a bodhichitta pode surgir não como ideal imposto, mas como resposta natural de uma mente que, finalmente, aprendeu a não se esconder de si mesma.
NOTA: Ensaio inspirado nos ensinamentos ministrados por S. S. Sakya Trizin sobre o Caminho do Bodhisattva, no Centro Budista Sakya de Alicante, Espanha (Paramita.org). Quaisquer interpretações errôneas ou imprecisões na apresentação destes sublimes ensinamentos são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor deste blog.
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