O Paramitayāna pode ser compreendido a partir de uma cena fundadora que antecede qualquer classificação de veículos ou sistematização doutrinária: o momento imediatamente posterior ao despertar do Buda, quando, segundo os relatos antigos, surge nele uma profunda relutância em ensinar. Tendo realizado o não-condicionado, ele reconhece a profundidade, a sutileza e a dificuldade do Dharma. Os seres, absorvidos pelo apego, pela aversão e pela confusão, pareceriam incapazes de compreender aquilo que havia sido visto. Ensinar poderia ser inútil; talvez até perturbador. Nesse instante, a libertação está completa. Nada falta, nada precisa ser acrescentado. O silêncio é uma possibilidade real, legítima, coerente com a realização alcançada.
É justamente nessa tensão entre o silêncio possível e a palavra que se revela, que surge o gesto decisivo. Movido não por necessidade pessoal, nem por desejo de reconhecimento, mas por compaixão, o Buda contempla os seres “com pouco pó nos olhos” e decide ensinar. A decisão não nasce de uma obrigação externa, nem de um ideal abstrato, mas de uma resposta direta à visão da interdependência e do sofrimento. A iluminação, ao invés de se fechar em si mesma, manifesta-se como responsabilidade. Esse momento — a passagem do recolhimento possível à ação compassiva — pode ser lido como o núcleo arquetípico da bodhicitta: a união indissociável entre a realização plena do despertar e a orientação consciente para o benefício de todos os seres.
Essa narrativa é decisiva porque nela a bodhicitta ainda não é um conceito, um voto ou uma doutrina, mas um gesto existencial. O Buda ensina quando já não há nada a ganhar; age quando o ciclo do ganho pessoal foi completamente esgotado. Ele não ensina para se libertar, mas porque está livre; não para completar algo em si, mas porque a visão realizada não se separa da compaixão. O despertar autêntico, nessa perspectiva, não culmina no isolamento, mas no transbordamento. É essa estrutura profunda, silenciosa e anterior a qualquer formulação doutrinária, que constitui o núcleo arquetípico da bodhicitta.
Nos discursos antigos, o termo bodhisattva aparece apenas como uma autodesignação do Buda antes do despertar, indicando aquele que está orientado para a iluminação plena. Não designa ainda um caminho normativo acessível a todos, mas uma condição excepcional. Ainda assim, o modo como essa trajetória é narrada não é neutro. Ao expor sua busca, suas renúncias e suas escolhas, o Buda oferece um modelo de motivação que vai além da simples cessação do sofrimento individual. Sua aspiração não se limita à paz pessoal, mas se orienta para a realização completa da bodhi, e sua realização, por sua vez, não se encerra em si mesma. A exemplaridade do bodhisattva antigo está precisamente no fato de que a iluminação culmina em ensino, e o ensino nasce da compaixão.
Essa estrutura motivacional já encontra ressonância em diversos elementos do Budismo antigo. A ênfase constante na intenção como eixo do karma, a crítica à prática baseada em ganho, honra ou fama, e o cultivo dos brahmavihāras como estados mentais vastos e ilimitados indicam um caminho de progressivo descentramento do eu. A mente é treinada a abandonar a apropriação, não apenas dos objetos do mundo, mas também da própria prática espiritual. A compaixão, nesse contexto, não é um sentimento acessório, mas uma consequência natural da dissolução gradual das fronteiras rígidas entre si e os outros.
Quando o Mahāyāna emerge, sobretudo nos primeiros sūtras da Prajñāpāramitā, esse núcleo arquetípico é finalmente nomeado. O termo bodhicitta passa a designar explicitamente aquilo que antes operava de forma implícita: a decisão consciente de orientar toda a vida ao despertar em função do bem de todos os seres. O que muda não é o conteúdo essencial da motivação, mas seu estatuto. Aquilo que antes aparecia como gesto singular e exemplar torna-se o princípio normativo do caminho. A bodhicitta deixa de ser apenas a resposta espontânea do Buda desperto e passa a ser o ponto de partida de qualquer praticante que aspire ao caminho do bodhisattva.
É nesse mesmo movimento que se consolida o Paramitayāna como forma específica de apresentar o caminho Mahāyāna. As qualidades já conhecidas e cultivadas desde os primórdios — generosidade, disciplina ética, paciência, esforço, estabilidade meditativa e sabedoria — passam a ser organizadas como pāramitās, isto é, como modos de atravessar progressivamente as tendências egocentradas da mente. As seis perfeições não surgem como uma lista arbitrária de virtudes, mas como a expressão prática da bodhicitta no tempo. Cada uma delas protege e amadurece esse núcleo arquetípico, impedindo que a motivação altruísta se degrade em idealismo vazio ou em autoimagem espiritual.
A generosidade purifica a relação com a posse e com o controle; a ética estabiliza a relação com o outro; a paciência transforma a reação defensiva diante do sofrimento; o esforço sustenta a continuidade sem rigidez; a meditação unifica a mente sem retraí-la do mundo; e a sabedoria dissolve as apropriações mais sutis, inclusive a apropriação da própria compaixão. Sem bodhicitta, essas práticas podem facilmente se tornar instrumentos de aperfeiçoamento pessoal; sustentadas por ela, tornam-se meios de participação lúcida no sofrimento e na libertação dos seres.
Assim, o Paramitayāna pode ser entendido como uma pedagogia destinada a tornar realizável, estável e transmissível aquele gesto inaugural do Buda após o despertar. Ele não começa propriamente com a enumeração das pāramitās, mas com a pergunta silenciosa que antecede o primeiro ensinamento: permanecer no repouso da realização ou responder ao mundo? A bodhicitta nomeia essa resposta; as pāramitās ensinam como sustentá-la ao longo do tempo. Visto desse modo, o Mahāyāna não introduz um ideal estranho ao Dharma antigo, mas explicita uma verdade que já estava presente desde o início: quando o despertar é genuíno, ele não se fecha sobre si mesmo, mas transborda, inevitavelmente, para o benefício de todos os seres.
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