No Bodhicharyāvatāra, a ausência de um capítulo explicitamente dedicado à perfeição da generosidade não indica lacuna doutrinal, mas o próprio alicerce silencioso sobre o qual todo o edifício do caminho do bodhisattva se ergue. Śāntideva escreve como quem pressupõe algo decisivo: quem se aproxima desse caminho já deu o passo mais difícil. A geração da bodhicitta não é uma técnica entre outras, mas um deslocamento radical do eixo da existência. Decidir tornar-se um ser deperto para o benefício ilimitado de todos os seres não é apenas um voto; é a forma suprema de generosidade, pois envolve a oferta antecipada de tudo aquilo que ainda não se possui — o próprio despertar, os méritos futuros, a própria identidade como projeto separado. Por isso, nos capítulos iniciais, quando os versos se movem entre louvor, oferenda e confissão, a generosidade não é tematizada; ela é o ar que se respira. Antes de ser ensinada, ela já foi assumida como condição de possibilidade do caminho.
Essa compreensão se aprofunda quando Śāntideva introduz aquilo que pode ser chamado de entrega total. Aqui, a perfeição da generosidade se distancia definitivamente de qualquer leitura restrita ao plano material. Dar não é transferir objetos, mas abrir mão do centro em torno do qual a apropriação se organiza. No capítulo dedicado à adoção da bodhicitta, a linguagem se torna deliberadamente extrema: oferecer o corpo, a vida, os méritos, sem reserva. Essa radicalidade não é retórica devocional; é uma pedagogia da transcendência. Ao levar a lógica da dádiva até o limite, Śāntideva expõe a ficção que sustenta o apego: a ideia de um “eu” que possui algo e, portanto, pode decidir concedê-lo. A generosidade perfeita não é o ato heroico de um sujeito magnânimo, mas o colapso gradual da fronteira entre o que é “meu” e o que é simplesmente disponível ao fluxo do benefício dos outros.
É nesse ponto que a noção mesma de “perfeição” é redefinida. Śāntideva não mede a dāna-pāramitā por seus efeitos externos, como a erradicação da pobreza ou a reorganização das condições do mundo. Ele desmonta essa expectativa com uma pergunta incisiva: se a perfeição da generosidade consistisse em eliminar a pobreza, como os Budas do passado poderiam tê-la alcançado, já que o mundo continua abraçado à miséria? A resposta desloca o critério da ação para a intenção, do resultado para o estado mental. A generosidade é perfeita quando não há mais apego ao que é dado, nem ao ato de dar, nem à identidade de quem dá. O gesto externo pode ser mínimo; o desapego interno, absoluto. Nesse sentido, a perfeição não é quantitativa, mas qualitativa: é a disposição irrestrita de oferecer tudo, mesmo quando nada é efetivamente retirado de nossas mãos.
Essa compreensão ilumina a estrutura do texto como um todo. Os capítulos que se seguem não “substituem” a generosidade; eles a protegem, aprofundam e desobstruem. A ética surge como o cuidado vigilante que impede que a mente, já orientada para o doar-se, se disperse ou se contradiga. A paciência é o antídoto para a raiva, essa força que interrompe violentamente o fluxo da generosidade ao reinstalar a lógica do inimigo e do dano pessoal. O entusiasmo combate a inércia que faz a mente recuar diante da vastidão do compromisso assumido. A meditação estabiliza e refina a capacidade de troca de si pelo outro, tornando a generosidade menos impulsiva e mais lúcida. E, por fim, a sabedoria dissolve a raiz última da retenção ao revelar a vacuidade do eu, do outro e do próprio ato de dar.
Quando essa compreensão amadurece, a generosidade deixa de ser um esforço voluntário e se torna uma expressão espontânea da visão. Se não há um eu sólido a defender, acumular ou promover, dar deixa de ser um evento extraordinário e passa a ser o modo natural de funcionamento da mente. Assim como o pulmão não decide se vai respirar, a mente que compreende a vacuidade não delibera se será generosa. Ela simplesmente responde às condições com abertura.
Visto desse ângulo, a ausência de um capítulo específico sobre a generosidade deixa de ser um enigma e se revela como um paradigma silencioso que modela toda a obra. O Bodhicharyāvatāra inteiro é um exercício contínuo de doação: da identidade, do mérito, das certezas, da própria centralidade. Assim, aquilo que Śāntideva deixa implícito se mostra evidente, ou seja, que no caminho do bodhisattva a generosidade é a expressão mais imediata de bodhichitta, uma mente que começa a esquecer de si mesma e não pergunta mais sobre o que doar, mas como doar de forma sábia e incondicional.
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