No terceiro capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado de Adotando Plenamente a Bodhichitta, revela-se uma pedagogia espiritual que não visa apenas refinar estados mentais individuais, mas reconfigurar radicalmente a direção da existência. As práticas ali apresentadas não funcionam como atos isolados de devoção ou ética, mas como movimentos precisos de uma mente que aprende a sair do confinamento do eu e a habitar o horizonte vasto do benefício ilimitado à todos os seres.
Assim, a passagem do segundo para o terceiro capítulo não marca apenas uma mudança temática, mas uma inflexão silenciosa e decisiva no movimento interior do praticante. Trata-se de uma transição existencial, na qual a mente, antes voltada para a purificação de seus próprios entraves, começa a aprender a habitar um espaço mais vasto, orientado não mais pela reparação do passado, mas pela doação consciente no presente.
Entretanto, o capítulo 2 conduz a um esvaziamento necessário: nele, o sujeito espiritual é gradualmente desmontado por meio da confissão, do arrependimento e da exposição direta da vulnerabilidade do eu. Ao reconhecer a força destrutiva das ações não virtuosas e a precariedade de suas defesas habituais, o praticante abandona a ilusão de autonomia pessoal. Esse gesto não é moralista nem punitivo, mas profundamente libertador, pois dissolve a rigidez identitária que sustenta a repetição do sofrimento.
O resultado desse processo é uma mente mais maleável, menos defensiva, menos investida em justificar-se. O capítulo 2, portanto, não visa produzir um sujeito moralmente corrigido, mas um campo mental desobstruído, capaz de reconhecer suas próprias fissuras sem se fixar nelas. É nesse ponto que o silêncio entre os capítulos se torna eloquente: algo foi retirado, algo cessou de operar, e o espaço deixado por essa retirada exige agora um novo modo de habitação. O terceiro capítulo emerge precisamente como resposta a esse vazio fértil. Já não se trata de purificar-se para salvar-se, mas de abrir-se para participar de um movimento de libertação que não tem o eu como centro.
Do ponto de vista psicológico, essa transição pode ser compreendida como a passagem da negatividade purificadora para a positividade relacional. O caminho do bodhisattva, tal como delineado por Śāntideva, não começa com uma afirmação heroica, mas com um esvaziamento honesto; e não culmina num altruísmo forçado, mas numa generosidade que brota naturalmente quando a mente deixa de se fechar sobre si mesma. Assim, a transição entre os capítulos 2 e 3 pode ser lida como a passagem do trabalho com a sombra para a abertura ao outro.
Regocijar-se nas virtudes, tanto mundanas quanto transcendentais, inaugura esse movimento com uma sutileza frequentemente subestimada. Alegrar-se pelo bem realizado — por si e pelos outros — dissolve uma das raízes mais persistentes do sofrimento: a inveja espiritual e a comparação silenciosa. Ao regozijar-se, a mente aprende a reconhecer a virtude como um bem não escasso, cuja expansão não diminui ninguém. Esse regozijo não é mero entusiasmo emocional, mas um alinhamento profundo com a lógica da interdependência: o bem de um é, em última instância, o bem de todos. Assim, a alegria torna-se já uma forma de sabedoria.
Pedir que a roda do Dharma continue a girar é reconhecer que o despertar não é um evento privado, mas um processo histórico e relacional. Essa súplica expressa a consciência de que a ignorância não se dissipa apenas por esforço individual, mas pela presença contínua de ensinamentos vivos no mundo. Ao mesmo tempo, pedir que os budas e mestres não entrem no nirvana definitivo revela um deslocamento decisivo da motivação: a libertação pessoal deixa de ser o objetivo final. A permanência no mundo, mesmo após a realização, é vista como um ato supremo de compaixão, um ato de sábia renúncia para permanecer acessível aos seres ainda imersos no sofrimento.
A dedicação do mérito completa esse ciclo de purificação, impedindo que a virtude se cristalize como capital espiritual do ego. Dedicar o mérito de forma geral e, sobretudo, de maneira específica — aos doentes, famintos, sedentos e pobres — ancora a prática na realidade concreta do sofrimento humano. A dedicação funciona como um gesto de genuína generosidade: ela nega a apropriação individual dos frutos da ação e reinscreve cada ato virtuoso no tecido coletivo da existência. O mérito, assim, deixa de reforçar uma identidade espiritual e passa a operar como energia de cuidado e transformação.
Sobre essa base purificada, iniciam-se as práticas explícitas de treinamento da mente para o benefício dos outros. Renunciar a tudo não significa uma rejeição literal do mundo, mas uma redefinição radical da relação com ele. Determinar a que se renuncia e por qual razão é um exercício de lucidez: renuncia-se à posse egocêntrica, ao controle ilusório e à crença de que algo pode, de fato, ser mantido como “meu”. Essa renúncia liberta a mente do medo constante da perda e a prepara para a generosidade transcendente.
A renúncia ao corpo aprofunda esse gesto até seu ponto mais sensível. Entregar o corpo àqueles com quem nos relacionamos — familiares, amigos, inimigos — e aspirar a ser causa de benefício para todos os seres implica uma reconfiguração ontológica da identidade. O corpo deixa de ser apenas o suporte do eu e torna-se instrumento de serviço, presença e cuidado. Essa entrega não é autodestrutiva, mas transformadora: ao abandonar a centralidade do “meu corpo”, a existência corporal passa a ser vivida como meio hábil para aliviar o sofrimento alheio.
É nesse terreno que se inscreve a parte principal do capítulo: a tomada dos votos de bodhichitta. O voto que aspira, estabelece a intenção irreversível de alcançar o despertar para o benefício de todos os seres; o voto que empreende, traduz essa intenção em compromisso ativo, ético e contínuo. A distinção entre ambos não é hierárquica, mas dinâmica: a aspiração dá direção, a aplicação dá forma. Juntos, eles selam uma mudança estrutural na motivação profunda da mente, que passa a orientar pensamento, palavra e ação segundo o critério do benefício universal.
O ritual de conclusão, marcado pela geração de alegria em si mesmo e nos outros, não é um apêndice emocional, mas a confirmação de que o caminho do bodhisattva não é um fardo ascético. A alegria aqui nasce da integração entre propósito pessoal e propósito alheio, mostrando que a felicidade genuína surge precisamente quando a dicotomia entre eu e outro começa a se dissolver. Essa alegria compartilhada sela o capítulo como um todo coerente: uma prática em que purificação, renúncia, compromisso e júbilo não são etapas separadas, mas expressões convergentes de uma mente que aprende, gradualmente, a viver não mais para si, mas como espaço aberto para o despertar de todos os seres.
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