No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, intitulado “A Confissão das Ações Negativas”, Śāntideva inicia a exposição do processo de purificação do continuum mental por meio de uma prática que, à primeira vista, pode parecer ritualística, mas que revela, em profundidade, uma sofisticada pedagogia da transformação interior: a prática das oferendas.
Antes de qualquer confissão explícita ou reconhecimento direto das ações negativas, o texto conduz o praticante a um deslocamento silencioso do eixo da experiência — do “eu” que se apropria, calcula e protege, para uma mente que se abre, se esvazia e se oferece. As oferendas, nesse contexto, não são dirigidas a satisfazer necessidades dos Budas, mas a desarticular as estruturas sutis do apego que sustentam a identidade egocentrada.
Ao oferecer aquilo que lhe pertence, o praticante confronta a ilusão de posse; ao oferecer o que não pertence a ninguém, ele afrouxa ainda mais a crença em um “meu” que se estende sobre o mundo; ao oferecer o próprio corpo, fala e mente, ele toca o núcleo da identidade, colocando em suspensão a narrativa íntima de autoafirmação. Cada camada da oferenda corresponde a um nível mais profundo de desapego do eu. O que se purifica não é o apego ao objeto oferecido, mas o modo de relação com a realidade.
Śāntideva conduz esse movimento com extrema delicadeza filosófica. A oferenda perfeita é explicitamente associada à pureza das três esferas — aquele que oferece, o que é oferecido e aquele que recebe. Essa tríplice percepção da vacuidade não é uma abstração metafísica, mas uma experiência cultivada no próprio ato de oferecer. Quando a mente reconhece que nenhum desses pólos possui existência inerente, o gesto de oferecer deixa de ser uma transação simbólica e se torna uma forma de insight em ação. Generosidade e sabedoria, nesse ponto, deixam de ser virtudes separadas e passam a operar como um único movimento não dual.
As longas enumerações de flores, águas, perfumes, montanhas, palácios e ornamentos não devem ser lidas como exacerbação poética, mas como um treino deliberado da imaginação contemplativa. Ao criar mentalmente um universo saturado de beleza e oferecê-lo sem apego, o praticante aprende a habitar um mundo que não é organizado pela carência, mas pela abundância. Essa imaginação não é escapista; ela reeduca o olhar. O mundo, antes percebido como campo de apropriação ou ameaça, passa a ser visto como potencial oferenda. A realidade inteira se converte em um espaço simbólico de doação contínua.
Há, contudo, um elemento decisivo que impede que essa prática se converta em soberba espiritual: a humildade radical. Ao reconhecer-se “pobre em méritos”, o praticante não se diminui de forma neurótica, mas abandona a pretensão de autossuficiência espiritual. Essa pobreza é existencial: é o reconhecimento de que a bodhicitta não nasce da força do ego refinado, mas da sua rendição. Pedir que os Budas aceitem as oferendas “para beneficiá-lo” não é um pedido de recompensa, mas uma admissão de vulnerabilidade. A aceitação simbólica das oferendas representa a resposta compassiva da realidade quando a mente se abre sem defesas.
Quando a prática avança para a oferenda do próprio corpo, o sentido de confissão começa a se insinuar de forma implícita. Oferecer-se integralmente é comprometer-se a não mais usar o corpo, a fala e a mente como instrumentos de repetição das aflições. Não se trata de autopunição, mas de reorientação. A promessa de abandonar ações negativas futuras surge naturalmente desse gesto: quem se oferece ao caminho não pode mais agir como se estivesse separado de seus efeitos. A ética, aqui, não é imposta; ela emerge como consequência direta da entrega.
As oferendas mentalmente criadas aprofundam ainda mais esse processo. Ao deslocar completamente a prática do plano material para o plano da mente, Śāntideva sugere que o verdadeiro altar não está fora, mas na própria consciência. Banhar os Budas, vesti-los, ornamentá-los, iluminá-los — tudo isso acontece no espaço imaginal que, longe de ser ilusório no sentido comum, torna-se o laboratório onde a percepção habitual é transfigurada. A mente aprende a gerar pureza em vez de reatividade, beleza em vez de fixação, presença em vez de distração.
Nesse ponto, a oferenda revela sua função mais profunda: ela dissolve, de forma gradual e não violenta, as condições internas que impediam uma confissão possível. Antes de reconhecer explicitamente as ações negativas, o praticante aprende a não se agarrar à identidade que precisa defendê-las. A oferenda prepara o terreno psicológico e ontológico para a confissão ao enfraquecer o narcisismo espiritual e a rigidez do eu moral. Confessar sem essa preparação seria apenas reforçar a culpa; confessar após a oferenda é permitir que a negatividade se dissolva em um espaço de abertura e lucidez.
Assim, os versos dedicados às oferendas no segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra não são um preâmbulo decorativo, mas o primeiro gesto terapêutico de um processo profundo de purificação. Oferecer é aprender a soltar; soltar é aprender a ver; e ver, nesse contexto, é reconhecer que a bodhicitta não surge da perfeição do eu, mas do seu esvaziamento. A prática começa quando a mente deixa de perguntar o que pode obter do caminho e passa, silenciosamente, a se perguntar o que pode oferecer ao mundo.
NOTA: Ensaio inspirado nos ensinamentos ministrados por S. S. Sakya Trizin sobre o Caminho do Bodhisattva, no Centro Budista Sakya de Alicante, Espanha (Paramita.org). Quaisquer interpretações errôneas ou imprecisões na apresentação destes sublimes ensinamentos são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor deste blog.
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