É possível ler o capítulo 2 do Bodhicharyāvatāra, tradicionalmente conhecido como “Confissão das Faltas”, como um exercício devocional ou como uma preparação ética para o caminho do bodhisattva. No entanto, uma leitura mais atenta revela algo mais profundo: trata-se de um trabalho sistemático sobre a mente, que pode ser compreendido, em termos contemporâneos, como uma forma refinada de psicoterapia contemplativa — com notáveis ressonâncias com aquilo que a psicologia profunda chamou de trabalho com a sombra.
Essa aproximação, porém, exige cuidado. O texto de Shāntideva não pode ser reduzido a uma técnica terapêutica moderna, nem sua finalidade é o fortalecimento do eu. Ainda assim, ele opera diretamente sobre os mesmos territórios psíquicos que a psicoterapia moderna reconhece como decisivos: a negação, a dissociação, a projeção e a autojustificação. A diferença está no horizonte último que orienta esse trabalho.
O segundo capítulo começa onde muitas abordagens espirituais — e mesmo terapêuticas — costumam hesitar: no enfrentamento direto daquilo que o praticante preferiria não ver em si mesmo. Shāntideva não constrói uma narrativa de progresso moral gradual, mas convida a mente a se expor sem defesas. A confissão aqui não tem o tom de culpa ritualizada nem de autoacusação neurótica. Ela é, antes, um gesto de desvelamento radical.
Nesse sentido, o capítulo pode ser lido como um método para romper a dissociação entre a autoimagem espiritualizada e os impulsos reais que continuam operando no fundo da mente. Desejo, agressividade, inveja, orgulho e indiferença moral não são negados nem suavizados. Eles são nomeados com precisão, não para serem punidos, mas para perderem o poder que possuem enquanto permanecem invisíveis.
É nesse ponto que o diálogo com o conceito de sombra, desenvolvido por Carl Jung, se torna particularmente fecundo. A sombra não designa apenas conteúdos moralmente negativos, mas tudo aquilo que o eu consciente não consegue integrar sem ameaçar sua narrativa de identidade. O capítulo 2 do Bodhicharyāvatāra opera exatamente nesse território: ele desmonta a tendência do praticante a preservar uma imagem idealizada de si mesmo, mesmo à custa da lucidez.
A diferença decisiva, contudo, está no objetivo do processo. Na psicologia junguiana, o trabalho com a sombra visa à integração desses conteúdos ao self, ampliando a totalidade da personalidade. Em Shāntideva, o movimento é outro: ao trazer esses conteúdos à luz, o texto não busca integrá-los a uma identidade mais ampla, mas revelar a vacuidade da própria identidade que tenta controlá-los ou escondê-los.
Por isso, a confissão no Bodhicharyāvatāra é menos moral do que ontológica. O problema central não são as ações em si, mas a estrutura mental que insiste em se justificar, se proteger e se preservar. Ao expor repetidamente essa estrutura, o capítulo enfraquece o investimento afetivo no eu como centro fixo da experiência.
Do ponto de vista psicoterapêutico, esse processo tem efeitos profundos. Primeiro, ele reduz drasticamente a necessidade de projeção. Ao reconhecer em si mesmo as tendências destrutivas que normalmente atribui aos outros, o praticante dissolve parte da hostilidade e do ressentimento que alimentam o sofrimento relacional. Segundo, ele previne o bypass espiritual: a tentativa de usar ideais elevados para evitar o contato com conflitos internos não resolvidos.
Mais profundamente ainda, o capítulo 2 desativa aquilo que poderíamos chamar de narcisismo moral. O praticante não confessa para se sentir melhor consigo mesmo, nem para alcançar uma sensação de pureza psicológica. Confessa para abandonar a defesa contínua de uma imagem que o impede de despertar. Nesse ponto, a vergonha que surge não é tóxica nem paralisante; ela tem uma função libertadora, pois dissolve a fantasia de excepcionalidade.
A presença simbólica dos Budas e bodhisattvas como testemunhas da confissão não deve ser interpretada como vigilância externa ou julgamento transcendental. Ela representa um campo de lucidez no qual a mente se expõe sem cúmplices internos. Confessar “diante dos Budas” é confessar sem autoengano, sem narrativas compensatórias, sem o conforto da condescendência consigo mesmo.
Esse desnudamento psíquico cria o solo necessário para o surgimento genuíno da bodhicitta. Sem o trabalho prévio do capítulo 2, a aspiração ao despertar para o benefício dos outros corre o risco de permanecer abstrata, idealizada ou instrumentalizada pelo ego. Ao desmontar as resistências profundas da mente, Shāntideva prepara uma reorganização afetiva radical: a passagem de uma psique centrada na autopreservação para uma mente orientada pela responsividade compassiva.
Talvez possamos dizer, em síntese, que se a psicoterapia moderna busca tornar o sujeito mais integrado, o capítulo 2 do Bodhicharyāvatāra busca tornar o sujeito transparente. Não se trata de fortalecer o eu, mas de torná-lo permeável à lucidez.
Nesse sentido, esse capítulo não é apenas uma introdução ética ao caminho do bodhisattva. Ele é um dispositivo preciso de transformação da mente, capaz de dialogar profundamente com a psicologia contemporânea sem perder sua radicalidade. Ao invés de nos ensinar a conviver melhor com nossas sombras, Shāntideva nos convida a olhar para elas até que a própria necessidade de defendê-las — ou integrá-las — se dissolva. É nesse espaço de transparência que a bodhicitta deixa de ser um ideal e começa a se tornar uma força viva.
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