No segundo capítulo do Bodhicharyāvatāra, após o longo e cuidadoso treinamento da mente por meio das oferendas, Śāntideva conduz o praticante a dois gestos que aprofundam decisivamente o processo de purificação interior: a homenagem e o refúgio. Ambos podem ser lidos, em um primeiro nível, como práticas devocionais tradicionais; contudo, numa leitura contemplativa mais atenta, revelam-se como operações sutis de deslocamento da identidade e de reorientação radical da confiança existencial. Se as oferendas enfraquecem o apego à posse e ao controle, a homenagem e o refúgio desestabilizam o apego ainda mais profundo ao ponto de vista autocentrado a partir do qual o mundo é interpretado.
A homenagem, expressa sobretudo na prática das prostrações, não visa engrandecer os Budas, o Dharma ou a Sangha. Ela atua diretamente sobre a estrutura do ego, expondo sua fragilidade fundamental. Prostrar-se é permitir que o corpo ensine à mente aquilo que a mente resiste em admitir: que não é o centro do real. Quando Śāntideva fala em prostrar-se com tantos corpos quanto partículas existem no universo, não está propondo uma visualização hiperbólica, mas indicando a dissolução simbólica da identidade unitária e fixa. O “eu” que se curva deixa de ser um ponto sólido e passa a se multiplicar, fragmentar e, finalmente, perder sua centralidade. A homenagem, assim, não é submissão, mas descentramento.
Esse gesto possui uma densidade filosófica particular no contexto do Madhyamaka. Ao curvar-se diante dos Budas do passado, presente e futuro, do Dharma e da assembleia nobre, o praticante reconhece que a realidade não se esgota na perspectiva imediata de sua mente condicionada. A homenagem é um reconhecimento da dimensão transpessoal da sabedoria. Não se trata de adorar figuras externas, mas de reconhecer a presença do despertar onde quer que ele se manifeste — em ensinamentos, pessoas, símbolos e lugares. Ao honrar esses suportes, a mente abandona, ainda que momentaneamente, a pretensão de ser sua própria medida.
A homenagem aos mestres e praticantes autênticos aprofunda esse movimento. Aqui, a prática toca um ponto delicado: a relação entre devoção e discernimento. Śāntideva não propõe uma reverência ingênua ou acrítica, mas uma atitude que reconhece o valor da transmissão viva do Dharma. Homenagear o mestre é reconhecer que o caminho não é uma construção privada, moldada ao gosto do ego pessoal, mas algo que exige escuta, correção e reconhecimento da vulnerabilidade. Nesse sentido, a homenagem funciona como um antídoto contra a espiritualidade autocentrada, aquela que transforma o Dharma em mais um espelho refinado do narcisismo.
Se a homenagem dissolve o orgulho, o refúgio dissolve a ilusão de segurança baseada no eu. Tomar refúgio, no Bodhicharyāvatāra, não é um ato periférico, mas o eixo que reorganiza toda a vida psíquica e ética do praticante. Refugiar-se é admitir, de forma lúcida, que o sofrimento não pode ser superado pelos mesmos padrões mentais que o produzem. Ao declarar “até que alcance a iluminação, tomo refúgio no Buda, no Dharma e na Assembleia de Bodhisattvas”, o praticante reconhece explicitamente a insuficiência das estratégias habituais de controle, prazer e afirmação pessoal.
O refúgio, nesse contexto, não é uma crença consoladora, mas uma decisão existencial. Ele redefine o horizonte da confiança. Aquilo em que se confia deixa de ser o desempenho do ego, a estabilidade das circunstâncias ou a identidade social, e passa a ser o despertar enquanto possibilidade real presente na própria natureza da mente. O Buda representa a realização plena dessa possibilidade; o Dharma, o caminho que a torna inteligível e praticável; a Sangha, a prova viva de que esse caminho pode ser trilhado. Refugiar-se é alinhar-se a esse eixo, mesmo quando isso contraria impulsos egoicos imediatos e hábitos profundamente enraizados.
Há, aqui, uma diferença decisiva entre o refúgio mundano e o refúgio mahayana. Enquanto o primeiro busca proteção contra medos pontuais e sofrimento imediato, o segundo assume o sofrimento como parte do caminho e confia na sabedoria que o atravessa e supera. O refúgio mahayana é tomado não apenas até o fim desta vida, mas até a iluminação completa, o que implica uma temporalidade radicalmente ampliada e uma ética igualmente vasta. Não se busca escapar do mundo, mas transformá-lo a partir de uma mente que não se refugia mais em si mesma.
Quando homenagem e refúgio são compreendidos em conjunto, seu papel no capítulo da confissão torna-se mais claro. Antes de confessar ações negativas, o praticante aprende a soltar o orgulho que as defende e a confiar em algo maior do que o eu que as produziu. A confissão, que virá em seguida, não será um exercício de autoacusação, mas um gesto de honestidade sustentado pela confiança no despertar. Sem homenagem, a confissão tende a se tornar rígida ou moralista; sem refúgio, tende a se dissolver em culpa ou desespero. Com ambos, ela se torna um ato de lucidez compassiva.
Assim, na estrutura interna do Bodhicharyāvatāra, a homenagem curva o eu, e o refúgio o reorienta. Juntos, eles criam o espaço interior no qual a bodhichitta pode emergir não como ideal abstrato, mas como resposta viva à vulnerabilidade compartilhada de todos os seres. Curvar-se e refugiar-se, nesse sentido, não são gestos de dependência, mas de maturidade espiritual: são a expressão de uma mente que já não precisa sustentar a ficção da autossuficiência para começar, finalmente, a despertar.
NOTA: Ensaio inspirado nos ensinamentos ministrados por S. S. Sakya Trizin sobre o Caminho do Bodhisattva, no Centro Budista Sakya de Alicante, Espanha (Paramita.org). Quaisquer interpretações errôneas ou imprecisões na apresentação destes sublimes ensinamentos são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor deste blog.
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