Falar em “ego re-significado” é caminhar deliberadamente sobre o fio da navalha. Em um campo saturado por discursos terapêuticos e espirituais que buscam salvar o eu por vias cada vez mais sofisticadas, qualquer tentativa de reabilitar o termo corre o risco de ser mal interpretada. Por isso, é necessário começar com uma afirmação inequívoca: este ensaio não propõe um novo valor ontológico para o ego, nem uma versão mais sutil do self.
O hífen em re-significado não é estilístico. Ele é conceitual. Indica uma operação técnica, provisória e funcional — não a elevação do ego a fundamento, essência ou centro da experiência. Re-significar, aqui, significa retirar o ego de um lugar que ele nunca deveria ter ocupado: o de resposta última à pergunta “quem sou eu?”.
Se a postagem anterior - O Anatman Traído - mostrou como a abordagem contemporâneo da espiritualidade frequentemente cai na armadilha de preservar o eu sob novas roupagens — consciência, presença, Self verdadeiro, subjetividade integrada — este ensaio enfrenta o risco oposto: o uso prematuro do não-eu como solução para uma subjetividade fragilizada. Entre a reificação do ego e sua negação apressada, surge um problema real, histórico e clínico: é possível investigar radicalmente a ausência de um eu sem que haja, antes, um mínimo de coesão psíquica?
O diálogo moderno entre budismo e psicologia oscila entre dois erros simétricos. O primeiro, atribuído a um reducionismo psicológico, é mais conhecido: absolutizar o ego, tratá-lo como essência, centro ou identidade verdadeira. Trata-se da traição clássica do anatman: o eu não é abandonado, apenas promovido a um nível mais sutil. O segundo erro, menos frequente, observado em algumas vertentes budistas, mas não menos danoso: negar a necessidade funcional do ego, como se o reconhecimento da vacuidade dispensasse estabilidade psíquica. Nesse caso, o anatman é invocado de forma prematura, e o resultado não é libertação, mas colapso, dissociação ou espiritualização defensiva.
O budismo nunca propôs a dissolução do eu em um terreno instável. Ele sempre pressupôs continuidade ética, atenção sustentada e capacidade de autorregulação afetiva. Esses elementos não são metafísicos — são funcionais. Hoje, chamamos isso de integração do ego.
O ponto decisivo é simples e frequentemente ignorado: o ego não precisa ser verdadeiro, da perspectiva da realidade última, para ser necessário. Ele é uma função organizadora — coordena impulsos, sustenta narrativas mínimas, regula afetos e permite responsabilidade e prática contínua. Nada disso contradiz o anatman. O que o anatman nega não é a função, mas a reificação dessa função como “quem eu sou”. O erro moderno consiste em confundir instrumento psicológico com fundamento ontológico.
Há 2600 anos, a subjetividade era menos inflacionada. O praticante estava ancorado em comunidade, ritual, ética compartilhada e uma cosmologia relativamente estável. O ego não precisava ser construído — era herdado. No mundo moderno, esse pano de fundo colapsou. A subjetividade tornou-se fragmentada, hiper-reflexiva e frequentemente atravessada por trauma. Nesse contexto, a psicoterapia surge como um recurso contingente: ela oferece um mínimo de coesão psíquica para que a prática espiritual não se torne destrutiva. Isso não transforma a psicoterapia em caminho de libertação. Ela repara o veículo, mas não revela a natureza do caminho. Confundir essas duas coisas é apenas substituir uma metafísica por outra.
Portanto, defender a necessidade de integração psicológica não é, por si só, uma traição do anatman. Ela se torna traição quando ocorre uma inversão silenciosa entre meios e fins. A nova traição aparece quando a integração vira destino final, quando o “self saudável” substitui a cessação do apego, ou quando a prática espiritual é indefinidamente adiada em nome de mais terapia. Aqui, o ego não é negado — é eternizado. Nesse ponto, o hífen em re-significado revela sua função crítica: lembrar que toda função é provisória e que nenhuma organização psíquica está isenta da impermanência.
Nesse contexto, uma formulação rigorosa precisa ser mantida: o ego integrado não é aquilo que desperta; é aquilo que pode cair sem que tudo desmorone. A integração não prepara o ego para ser preservado, mas para não colapsar quando sua centralidade é questionada: é o partir, sem quebrar-se. Sem esse cuidado, o anatman não liberta — fragmenta. Com ele, a integração deixa de ser obstáculo e se torna condição de possibilidade.
Assim, re-significar o ego não foi, ao longo deste ensaio, um gesto de conciliação, mas de contenção. Não se tratou de salvar o eu por vias psicológicas, nem de oferecer uma versão mais sofisticada da identidade, mas de retirá-lo de um lugar que nunca lhe pertenceu: o de centro último da experiência.
A integração psicológica não é iluminação em estágio preliminar, nem substituto moderno do despertar. Ela é a estabilização mínima que permite que a investigação do não-eu não se transforme em dissociação ou fuga espiritual. Onde essa estabilidade falta, o anatman fere. Onde ela existe, o ego pode cumprir seu papel mais discreto: deixar de ser indispensável. Com isso, a psicoterapia pode ser elevada ao status de upaya. Prepara o terreno para o despertar.
Por fim, o anatman não exige a destruição do ego, nem sua glorificação. Exige algo mais difícil: que ele seja usado sem ser reificado. Quando isso ocorre, nada precisa ocupar o seu lugar.
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