“O apego às pessoas próximas nos arrasta como as marés. O ódio aos adversários nos queima como as chamas. Na escuridão da confusão esquecemos o que deve ser cultivado e abandonado. A prática dos bodhisattvas é abandonar a terra natal.”
A segunda prática dos bodhisattvas apresentada por Thogme Zangpo pode soar radical à primeira vista: “A prática dos bodhisattvas é abandonar a terra natal”. Em uma época em que valorizamos estabilidade, pertencimento e identidade, a ideia de deixar para trás nossa terra ancestral parece estranha ou até indesejável. Contudo, essa instrução pode ser abordada em dois diferentes níveis de significado e continua profundamente relevante para a vida contemporânea.
O primeiro nível corresponde ao caminho tradicional do bodhisattva, destinado àqueles que assumem conscientemente o compromisso de seguir o Dharma budista em toda a sua profundidade. O segundo nível busca traduzir os mesmos princípios para um contexto mais amplo, permitindo que qualquer pessoa interessada em crescimento interior, equilíbrio emocional e desenvolvimento humano possa aplicá-los em sua vida cotidiana.
O ponto de partida do ensinamento é o reconhecimento de uma realidade simples, mas frequentemente esquecida: alcançar uma estabilidade interior que não dependa das circunstâncias externas. Embora não nos encontramos nesse estágio, com treinamento e maturidade espiritual, talvez um dia sejamos capazes de permanecer serenos em meio às maiores tempestades da vida. Entretanto, no momento presente, somos profundamente influenciados pelo ambiente, pelas pessoas, pelos hábitos e pelas situações que nos cercam. Ignorar essa vulnerabilidade é uma forma de ingenuidade espiritual.
Por essa razão, as práticas de número dois a seis das Trinta e Sete Práticas dos Bodhisattvas concentram-se em um tema muito específico: a criação das melhores condições possíveis para o desenvolvimento interior. Antes de falar de realizações elevadas, sabedoria profunda ou compaixão ilimitada, o texto nos convida a examinar o terreno sobre o qual estamos construindo nossa vida espiritual. Esse trabalho possui duas dimensões inseparáveis: libertar-nos de condições potencialmente negativas e cultivar condições verdadeiramente favoráveis.
É justamente nesse contexto que começa nossa peregrinação espiritual. A imagem de abandonar a terra natal não representa apenas uma mudança geográfica. Ela simboliza o momento em que decidimos deixar para trás padrões familiares, condicionamentos antigos e formas de vida que já não favorecem nosso crescimento interior. É o início de uma jornada que leva ao abandono da terra natal.
Podemos receber inspirações, sinais, intuições ou ensinamentos valiosos, mas isso não substitui a decisão pessoal de iniciar a busca. Nesse sentido, a tradição budista encontra um paralelo interessante com a chamada Jornada do Herói, popularizada por Joseph Campbell. Em praticamente todos os grandes mitos da humanidade existe um momento em que o herói percebe que algo está incompleto em sua vida. Surge então um chamado. Alguns o ignoram. Outros respondem e deixam para trás a segurança do conhecido para aventurar-se em direção ao desconhecido.
Essa mesma dinâmica ocorre na vida espiritual. Há um momento em que começamos a suspeitar que a felicidade não pode depender apenas de circunstâncias externas. Intuímos que existe uma possibilidade maior de liberdade, sabedoria e plenitude. Contudo, nem todos que escutam esse chamado decidem segui-lo.
A dificuldade surge porque nosso estado atual de consciência é extremamente vulnerável. Entramos facilmente em crise emocional diante de inúmeras situações. Segundo a visão budista, isso ocorre principalmente devido ao nosso elevado grau de egocentrismo. Quanto mais centrados estamos em nossos desejos, medos, expectativas e preferências, mais reativos nos tornamos.
O mundo passa então a ser dividido em três categorias muito simples: aquilo que desejamos, aquilo que rejeitamos e aquilo que ignoramos. Essa divisão gera os três venenos aflitivos que sustentam o sofrimento humano.
O apego é comparado às marés. A metáfora é especialmente precisa porque o apego raramente se apresenta como algo ameaçador. Pelo contrário, surge sob a forma de algo agradável, acolhedor e desejável. Assim como alguém que brinca distraidamente no mar e só percebe muito tarde que foi arrastado pela correnteza, também nós muitas vezes não percebemos o quanto nossos desejos, dependências e fixações estão nos afastando dos objetivos mais profundos da vida.
O ódio, por sua vez, é comparado ao fogo. Diferentemente do apego, ele costuma ser mais fácil de identificar. Quando surge, queima imediatamente a tranquilidade mental, destrói relacionamentos e obscurece nossa capacidade de discernimento. Um único momento de raiva intensa pode comprometer muito do trabalho interior acumulado ao longo de meses ou anos.
Já a confusão é comparada à escuridão. Não se trata apenas da ignorância filosófica sobre a natureza da realidade, mas da incapacidade prática de distinguir aquilo que nos beneficia daquilo que nos prejudica. Quando estamos dominados pela confusão, perdemos o senso de direção. Passamos a tomar decisões baseadas apenas no que parece agradável ou desagradável no momento, sem considerar suas consequências mais profundas.
Diante desse cenário, a instrução de abandonar a terra natal ganha um significado extremamente prático. Nem todos que sentem o chamado da transformação irão verdadeiramente em busca da verdade. Muitos permanecerão presos aos mesmos padrões, às mesmas justificativas e aos mesmos hábitos durante toda a vida. Outros, porém, aceitarão o desafio de partir.
Na tradição budista, essa partida encontra sua expressão máxima na figura do iogue errante. Trata-se do praticante que abandona referências familiares e segue um caminho de descoberta interior, livre das estruturas habituais que moldam sua identidade. Embora poucos de nós sejamos chamados a uma renúncia tão radical, o simbolismo permanece válido. Em algum momento, todos os buscadores precisam abandonar aquilo que é excessivamente familiar para crescer.
Em sua aplicação mais imediata, a prática consiste simplesmente em sair do ninho. Sair do ninho significa examinar honestamente os fatores que desencadeiam nossas emoções negativas. Quais situações nos tornam mais irritados? Quais ambientes enfraquecem nossa disciplina? Quais relacionamentos reforçam nossos padrões menos saudáveis? Quais hábitos sabotam nossas melhores intenções?
Uma vez identificados esses fatores, o próximo passo é criar certa distância entre nós e aquilo que nos prejudica. Isso não significa condenar pessoas ou rejeitar o mundo, mas reconhecer realisticamente nossa vulnerabilidade atual.
Alguns locais físicos são tóxicos para nós. Não porque possuam alguma qualidade intrinsecamente negativa, mas porque despertam tendências que ainda não aprendemos a administrar. Certas casas, grupos sociais, ambientes profissionais ou contextos recreativos podem funcionar como gatilhos constantes para comportamentos que desejamos superar.
Da mesma forma, existem hábitos profundamente enraizados que drenam nossa energia, nossa atenção e nossa clareza. Muitas vezes sabemos exatamente quais são eles, mas continuamos repetindo-os por força da inércia. A prática do bodhisattva nos convida a interromper conscientemente esses ciclos.
Há também atitudes limitantes que funcionam como verdadeiros espaços mentais tóxicos. Ressentimento, vitimização, autocrítica excessiva, pessimismo e outros padrões semelhantes tornam-se lugares internos aos quais retornamos repetidamente. O ensinamento sugere que, em vez de habitar esses territórios psicológicos, devemos criar distância deles e fortalecer estados mentais mais saudáveis.
O propósito final não é fugir da vida, mas fortalecer-nos. Ao criar espaço entre nós e as condições que alimentam nossas aflições, desenvolvemos gradualmente mais clareza, equilíbrio, disciplina, compaixão e sabedoria. Com o tempo, aquilo que antes nos perturbava perde sua força. A tempestade continua existindo, mas já não nos arrasta da mesma maneira.
A segunda prática dos bodhisattvas nos recorda que a transformação interior exige mais do que boas intenções. Ela requer discernimento, coragem e, sobretudo, a disposição de abandonar aquilo que, embora familiar, já não serve ao nosso crescimento. Em última análise, deixar a terra natal é deixar para trás a antiga versão de nós mesmos para que algo mais livre, mais lúcido e mais compassivo possa nascer.
NOTA: Inspirado nos ensinamentos do Lama Rinchen Gyaltsen (Paramita.org).
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