Antes de prosseguir no estudo do Roteiro dos Oito Pontos, Lama Samten dedica esta instrução a aprofundar o treinamento contemplativo. Ele mostra como transformar a compreensão intelectual em visão direta, aplicando a contemplação à experiência cotidiana, aos seis reinos, aos seis bardos, à intersubjetividade e à complementariedade das perspectivas.
Roteiro dos Oito Pontos – Indo Adiante no Segundo Ponto
"A complementariedade considera que as múltiplas visões são riqueza."
"A intersubjetividade é o que conduz o rebanho."
"A paz só é possível quando a gente puder entender o outro no contexto do outro."
(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020)
O ensinamento sobre a Prajnaparamita visa reconhecer a natureza simultaneamente aparente, vazia e funcional de todos os fenômenos, desenvolvendo uma mente capaz de acolher a multiplicidade sem perder a lucidez.
Neste sentido, Lama Samten oferece um método contemplativo destinado a dissolver as fixações das bolhas de realidade sem destruir a capacidade de agir no mundo. O treinamento proposto parte de uma fórmula aparentemente simples e paradoxal: "isso é, isso não é, isso é".
O primeiro "isso é" reconhece honestamente a experiência. Não se trata de negar aquilo que aparece. O sofrimento é sentido, a alegria é vivida, as pessoas existem, os acontecimentos produzem consequências. A prática budista jamais começa negando a experiência. Pelo contrário, ela parte exatamente dela.
O segundo movimento — "isso não é" — desfaz a reificação. Nada possui existência independente ou essência própria. Tudo surge por causas, condições, linguagem, cultura, memória, corpo, história e relações. O que parecia absolutamente sólido revela-se uma construção coemergente. A experiência continua aparecendo, mas perde seu caráter absoluto.
Entretanto, a contemplação não termina aí. Surge novamente o terceiro movimento: "isso é". Mesmo sendo vazio de existência inerente, o fenômeno continua funcionando. O tabuleiro de xadrez continua organizando a partida; o dinheiro continua circulando; as instituições continuam produzindo produtos e serviços; os relacionamentos continuam despertando alegria ou sofrimento. A vacuidade não elimina o funcionamento convencional. Ela apenas impede que nos tornemos escravos do samsara.
Essa tríplice contemplação não constitui um exercício intelectual, mas um treinamento contínuo da percepção. Lama Samten propõe que ela seja aplicada repetidamente até que se transforme numa forma natural de ver o mundo. Para isso, utiliza aquilo que chama de estabelecimento da mandala: escolher um tema e contemplá-lo longamente, procurando inúmeros exemplos até que a visão se torne espontânea.
Os seis reinos do samsara oferecem um dos primeiros grandes campos para esse treinamento. Cada reino representa uma maneira específica de interpretar a realidade. O mundo dos deuses é marcado pela satisfação; o dos semideuses, pela competição; o humano, pela mistura de prazer e sofrimento; o animal, pela sobrevivência; o dos seres famintos, pela carência permanente; e o dos infernos, pela experiência intensa da dor e da aversão.
Cada um desses mundos é completamente verdadeiro para quem o habita. Não se trata de uma ilusão no sentido de algo inexistente. O sofrimento é real para quem sofre. A felicidade é real para quem a experimenta. Contudo, nenhuma dessas experiências constitui uma realidade definitiva. Cada uma depende da configuração mental e cármica daquele observador. Assim, aquilo que "é" para um ser pode simplesmente não existir para outro.
Ao contemplar sucessivamente cada reino, a mente começa a abandonar o hábito de considerar sua própria perspectiva como medida universal da realidade. Surge uma primeira abertura para a humildade cognitiva.
A mesma prática pode ser estendida aos seis bardos. A vida desperta, a meditação, o sonho, o processo da morte, o estado pós-morte e o renascimento constituem diferentes modos de funcionamento da consciência. Em cada um deles aparecem objetos, emoções, medos e identidades que parecem absolutamente reais naquele momento. Entretanto, todos podem ser observados sob o mesmo princípio: aparecem, não possuem existência inerente e, apesar disso, operam enquanto duram.
Essa extensão da contemplação revela algo profundamente libertador. A vacuidade não vale apenas para aquilo que chamamos de mundo externo. Ela também vale para nossas memórias, sonhos, meditações, emoções, identidades e narrativas pessoais. Tudo participa do mesmo movimento de surgimento dependente.
Entretanto, Lama Samten introduz um aspecto particularmente atual ao abordar a intersubjetividade. Nossa experiência não é construída apenas individualmente. As sociedades inteiras produzem bolhas compartilhadas de realidade. Pessoas confirmam mutuamente suas interpretações, fortalecendo crenças, medos e identidades coletivas.
Nesse ponto, a palestra aproxima a contemplação budista das questões contemporâneas envolvendo redes sociais, polarização política, manipulação emocional e construção de narrativas públicas. Uma mentira repetida coletivamente pode adquirir enorme poder psicológico, ainda que permaneça vazia de fundamento. Da mesma forma, emoções coletivas podem mover multidões inteiras.
O perigo não está apenas em acreditar numa ilusão individual, mas em participar inconscientemente de uma ilusão compartilhada. A intersubjetividade cria uma sensação extremamente convincente de realidade justamente porque muitas pessoas confirmam simultaneamente a mesma construção mental.
Por isso, contemplar torna-se também um exercício de liberdade diante das narrativas coletivas. A prática não busca produzir ceticismo absoluto, mas impedir que a mente seja capturada por qualquer construção, individual ou social.
É nesse contexto que Lama Samten apresenta um conceito extremamente fecundo: a complementariedade. Inspirando-se em Niels Bohr, ele mostra que diferentes perspectivas não precisam competir entre si. Ao contrário, podem enriquecer mutuamente a compreensão da realidade.
A complexidade reconhece que existem muitas perspectivas. A complementariedade vai além: afirma que cada perspectiva revela um aspecto legítimo do fenômeno e que a reunião dessas diferenças produz uma compreensão mais rica do que qualquer visão isolada.
Essa ideia possui enorme afinidade com a visão budista das múltiplas mandalas. Cada ser percebe o mundo a partir de suas causas e condições específicas. Nenhuma perspectiva esgota o real. Ao mesmo tempo, nenhuma precisa ser completamente descartada.
Sob essa ótica, compreender o outro deixa de significar convencê-lo ou derrotá-lo. Significa descobrir qual mandala está organizando sua experiência. Quando compreendemos a lógica interna da visão do outro, ampliamos também nossa própria visão.
Não por acaso, Bohr considerava a complementariedade um fundamento para a paz entre indivíduos e nações. A paz não nasce da uniformidade, mas da capacidade de reconhecer legitimidade parcial em diferentes perspectivas sem absolutizar nenhuma delas.
Esse ensinamento possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos cercados por discursos que exigem adesão total, classificam pessoas em grupos rígidos e transformam diferenças em antagonismos permanentes. A complementariedade oferece justamente o movimento oposto: ampliar a visão até que perspectivas aparentemente incompatíveis possam coexistir dentro de uma compreensão mais ampla.
Lama Samten também estende essa contemplação ao conhecimento científico. A ciência, frequentemente tomada como descrição definitiva da realidade, também participa do movimento "é, não é, é". As teorias funcionam extraordinariamente bem enquanto modelos explicativos, mas permanecem provisórias. Novas descobertas reorganizam continuamente aquilo que antes parecia definitivo.
Essa percepção não diminui a ciência; ao contrário, revela sua verdadeira força. O conhecimento científico cresce justamente porque permanece aberto à revisão. Nesse sentido, a ciência aproxima-se da prática contemplativa: ambas aprendem a abandonar certezas rígidas quando uma compreensão mais ampla se torna possível.
O mesmo vale para a psicologia, a sociologia, a filosofia, a política e todas as formas de conhecimento humano. Nenhuma descrição consegue capturar integralmente a realidade. Cada uma ilumina determinados aspectos enquanto deixa outros parcialmente ocultos.
Por fim, Lama Samten recorda que o maior campo de contemplação talvez seja o próprio mundo interno. Corpo, sensações, emoções, impulsos, energia, memórias, estados mentais e identidade podem ser observados exatamente segundo o mesmo princípio. Aquilo que sentimos aparece intensamente, mas não possui substância fixa. Ainda assim, produz efeitos enquanto permanece presente.
É por isso que práticas como Mahāsatipaṭṭhāna e Ānāpānasati continuam sendo instrumentos fundamentais. Elas ensinam a observar diretamente a experiência antes que ela se cristalize em identidade.
A contemplação deixa então de ser apenas uma técnica de meditação. Ela se transforma numa maneira de habitar o mundo. Cada encontro, cada emoção, cada conflito, cada notícia, cada pensamento e cada lembrança tornam-se oportunidades para reconhecer simultaneamente a aparência, a vacuidade e o funcionamento dos fenômenos.
Pouco a pouco, a mente aprende a caminhar por uma realidade infinitamente rica sem precisar aprisioná-la em definições rígidas. A multiplicidade deixa de ser ameaça e torna-se fonte de sabedoria. A diversidade deixa de provocar medo e passa a revelar a profundidade inesgotável da realidade dependente.
Talvez seja justamente esse o verdadeiro significado de estabelecer a mandala: aprender a viver num universo onde todas as perspectivas podem ser acolhidas, compreendidas e transcendidas sem que nenhuma precise ser transformada em verdade absoluta. Nesse espaço de abertura, a sabedoria e a compaixão deixam de ser ideais abstratos e tornam-se a forma natural de participar do mundo.
FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #36 - Roteiro dos Oito Pontos – Indo Adiante no Segundo Ponto).
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