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Despertando a Sabedoria (4): Contemplar é Aprender a Ver

Ao longo do caminho budista, acumulamos muitos ensinamentos. Aprendemos sobre as Quatro Nobres Verdades, os Doze Elos da Originação Dependente, a impermanência, a vacuidade, a compaixão, a natureza búdica. No entanto, será que realmente vemos aquilo que estudamos? É justamente essa questão que Lama Samten pretende responder com a palestra sobre a prática da contemplação apresentada no Retiro de Inverno de 2020 do CEBB.

Contemplar é Aprender a Ver

"Contemplar significa o quê? Então eu olho os exemplos, eu olho as aparências e vejo as aparências na perspectiva da verdade que foi apresentada."

"O Buda está nos convidando diretamente para a gente acessar essa mente ou desenvolver essa mente que é capaz de ver."

"O aspecto sutil é a mente que começa a operar e ver."

(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020)

Contemplar não significa pensar repetidamente sobre uma ideia nem decorar conceitos religiosos. Também não significa analisar intelectualmente um ensinamento como quem resolve um problema filosófico. Contemplar é permitir que uma verdade apresentada pelo Buda seja confrontada com a própria experiência até que deixe de ser uma hipótese e se torne uma evidência direta.

Por isso, a contemplação é profundamente experimental. O praticante torna-se um investigador da realidade. Em vez de perguntar se acredita ou não em determinado ensinamento, passa a perguntar: "Será que isso realmente acontece na minha vida?" Essa pequena mudança transforma completamente a prática.

Tomemos como exemplo a Primeira Nobre Verdade. O Buda afirma que toda existência condicionada está inseparavelmente ligada ao sofrimento. Essa afirmação pode parecer excessivamente pessimista quando ouvida pela primeira vez. A contemplação, porém, não exige concordância imediata. Ela apenas convida a olhar.

Olhar para os relacionamentos. Olhar para os filhos. Olhar para a saúde. Olhar para o trabalho. Olhar para a casa. Olhar para o dinheiro. Em cada uma dessas experiências aparece um padrão. Antes de possuirmos algo, sofremos por não o possuir. Depois de conquistá-lo, passamos a sofrer para preservá-lo. Se o perdemos, sofremos pela perda. Em qualquer direção que observemos, a impermanência exige um esforço constante para manter aquilo que inevitavelmente está mudando.

Não se trata de concluir que filhos, amizades ou bens materiais sejam problemas. O problema é o apego que tenta congelar aquilo cuja própria natureza é transformar-se. É exatamente isso que a contemplação revela.

Nesse ponto, Lama Samten faz uma observação extremamente importante. O objetivo da contemplação não é produzir uma lista infinita de exemplos de sofrimento. O objetivo é muito mais profundo: desenvolver uma mente que passe espontaneamente a reconhecer esse funcionamento da realidade.

Aqui surge uma distinção fundamental entre conhecimento e visão.

Existe o estudante que memoriza fórmulas. Existe também aquele que realmente compreende o fenômeno estudado. Ambos podem repetir as mesmas palavras, mas apenas um deles enxerga o princípio funcionando diante dos próprios olhos.

A diferença é semelhante àquela entre decorar a fórmula da gravitação universal e perceber intuitivamente como a gravidade atua em cada movimento do mundo. O primeiro possui informação. O segundo adquiriu uma nova maneira de perceber.

O Dharma procura exatamente essa transformação.

Quando essa mudança acontece, os ensinamentos deixam de ser frases preservadas nos livros e tornam-se uma lente através da qual passamos a enxergar toda a experiência. É por isso que Lama Samten descreve três níveis da contemplação.

O primeiro é o aspecto grosseiro. Nele ouvimos os ensinamentos, refletimos sobre eles e encontramos exemplos na vida cotidiana. Essa etapa é indispensável. Ela fornece o material necessário para que a compreensão amadureça.

O segundo é o aspecto sutil. Em determinado momento ocorre algo silencioso. Já não estamos apenas procurando exemplos. A própria mente aprende uma nova forma de olhar. A visão do Buda começa, pouco a pouco, a tornar-se também a nossa visão. 

Esse é um ponto profundamente marcante da prática. O mestre não está apenas transmitindo informações. Está transmitindo uma maneira de perceber a realidade. Quando essa percepção desperta em nós, ocorre aquilo que as tradições chamam de transmissão. Não é uma transmissão de palavras, mas de visão.

É nesse contexto que a contemplação se aproxima do Guru Yoga.

Frequentemente imaginamos Guru Yoga apenas como uma prática devocional. Entretanto, em seu sentido mais profundo, Guru Yoga consiste em aprender a operar com a mente do mestre. Assim como um aprendiz de música procura desenvolver o ouvido do grande músico ou um jovem cientista aprende a observar a natureza como observava Newton ou Einstein, o praticante do Dharma procura adquirir a visão utilizada pelo Buda.

A contemplação torna-se, então, um treinamento contínuo para assumir essa mente desperta.

Entretanto, existe ainda um terceiro nível, chamado por Lama Samten de aspecto secreto. Até aqui observávamos os fenômenos. Depois aprendemos a observar com uma nova inteligência. Agora surge uma pergunta ainda mais radical: quem é essa mente que observa?

Nesse instante a contemplação deixa de investigar apenas os objetos da experiência e começa a investigar o próprio ato de conhecer. É aqui que aparece Rigpa, a consciência desperta descrita na tradição Dzogchen.

Rigpa não é uma nova teoria sobre a mente. É o reconhecimento da consciência livre de qualquer ponto de referência fixo. Não é apenas uma inteligência capaz de compreender os fenômenos; é a liberdade anterior a todas as interpretações possíveis.

A partir desse reconhecimento compreendemos por que Prajñāpāramitā é chamada de "a mãe de todos os Budas". Toda sabedoria relativa nasce dessa abertura ilimitada que não está presa a nenhuma construção mental.

Nesse ponto, contemplação e meditação deixam de ser práticas separadas. A contemplação amadurece naturalmente em visão direta. Essa compreensão também ilumina as chamadas Três Voltas da Roda do Dharma.

Na Primeira Volta, o Buda simplesmente convida: contemple o corpo como corpo; contemple as sensações como sensações; contemple a mente como mente. Não oferece grandes explicações. Apenas aponta a direção do olhar.

Na Segunda Volta acrescenta uma chave decisiva: todos os fenômenos possuem a natureza da vacuidade. Agora já não observamos apenas as aparências; investigamos também sua ausência de existência inerente.

Na Terceira Volta surgem instruções extremamente refinadas sobre como reconhecer diretamente a natureza luminosa da mente, revelando que vacuidade e luminosidade jamais estiveram separadas.

Apesar dessas diferenças de linguagem, o objetivo permanece exatamente o mesmo: despertar a capacidade de ver.

Talvez esse seja um dos ensinamentos mais libertadores desta palestra. Cada apresentação do Dharma está completa em si mesma quando verdadeiramente contemplada. Não é a quantidade de ensinamentos recebidos que conduz ao despertar, mas a profundidade com que um único ensinamento é realizado.

Por isso, a contemplação não acontece apenas durante a meditação formal. Ela continua enquanto caminhamos pela rua, conversamos com outras pessoas, trabalhamos, organizamos a casa ou enfrentamos dificuldades inesperadas. Cada situação torna-se um exercício vivo.

A janela que precisa ser limpa, o jardim que exige cuidados, o objeto que se deteriora, a preocupação com aqueles que amamos, tudo passa a revelar silenciosamente a impermanência. Cada encontro manifesta a interdependência. Cada emoção revela os movimentos da mente. Cada instante transforma-se numa oportunidade de treinamento.

Pouco a pouco, a própria vida converte-se em um grande Satipatthana.

Talvez essa seja a contribuição mais profunda desta reflexão de Lama Samten. O Dharma não foi oferecido para aumentar nosso repertório intelectual. Foi oferecido para modificar radicalmente nossa maneira de perceber a realidade. 

Quando isso acontece, estudar já não significa acumular conceitos. Significa aprender a ver. E quando aprendemos verdadeiramente a ver, descobrimos que cada acontecimento, agradável ou difícil, cada pensamento, cada emoção, cada encontro e cada despedida tornam-se parte de uma única prática contínua de despertar.

A contemplação deixa então de ser um exercício realizado apenas nos momentos de prática formal e torna-se a própria forma de habitar e ver o mundo.

FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #29 - O Que é a Contemplação)

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