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Despertando a Sabedoria (5): Preparando a Mente para Prajñāpāramitā

Antes de ingressar diretamente no estudo da Prajñāpāramitā durante o Retiro de Inverno de 2020 do CEBB, Lama Samten realiza, nesta palestra, um movimento preparatório. Convida o ouvinte a compreender o contexto em que esses ensinamentos surgiram e continuam sendo transmitidos. Essa preparação faz parte do próprio ensinamento. Afinal, a sabedoria não floresce apenas a partir das palavras de um texto, mas também da compreensão do ambiente vivo no qual essas palavras adquirem significado.

Preparando a Mente para Prajñāpāramitā

"Na segunda volta do Dharma, a gente privilegia a dissolução do engano. E na terceira volta do Dharma, a gente privilegia aquilo que não desaparece."

"Ainda que as aparências sejam vazias, elas surgem. Então, como é que elas surgem? Elas surgem pela luminosidade."

(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020)

Frequentemente imaginamos que o apego se manifesta apenas em relação aos bens materiais, às pessoas ou às ideias comuns. Entretanto, no caminho espiritual, existe uma forma ainda mais refinada de apego: o apego à própria visão correta. 

O estudante começa a identificar-se com conceitos como vacuidade, não dualidade, luminosidade, natureza búdica ou Prajñāpāramitā. Pouco a pouco, aquilo que deveria libertar transforma-se em identidade. O Dharma converte-se em objeto de posse.

Os antigos mestres advertiam continuamente sobre esse risco. Nāgārjuna dizia que a vacuidade mal compreendida torna-se semelhante a uma serpente venenosa agarrada pela cauda. O problema nunca é o ensinamento; o problema é o modo como a mente tenta transformá-lo em uma nova segurança conceitual.

É precisamente nesse ponto que Lama Samten introduz uma reflexão sobre os grandes eruditos do budismo tibetano. Ele fala dos Khenpos, presentes principalmente nas tradições Nyingma e Kagyu, e dos Geshes da tradição Gelug. Poderia parecer uma simples descrição acadêmica, mas o propósito é outro. Ao mostrar como esses mestres são formados, ele evidencia que a sabedoria budista jamais desprezou o estudo rigoroso.

Os Khenpos começam decorando extensos conjuntos de textos. Durante anos memorizam sutras, tratados filosóficos e comentários clássicos. Somente depois iniciam o longo processo de debate, análise, contemplação e realização. O mesmo ocorre com os Geshes, cujo percurso acadêmico pode durar décadas. Sua Santidade o Dalai Lama, por exemplo, recebeu o título de Geshe Lharampa, o mais elevado grau de formação filosófica da tradição Gelug.

À primeira vista, essa ênfase na erudição poderia parecer incompatível com a busca direta pela realização espiritual. Entretanto, Lama Samten mostra exatamente o contrário. O estudo não substitui a experiência; ele prepara a mente para que a experiência não seja confundida com fantasia. O intelecto torna-se um instrumento de refinamento, não um obstáculo.

Vivemos em uma época que frequentemente opõe conhecimento intelectual e experiência espiritual. Muitos imaginam que basta "sentir" ou "meditar" para compreender a realidade. A tradição budista oferece uma visão muito mais equilibrada. O estudo disciplina a inteligência; a contemplação purifica as emoções; a meditação estabiliza a mente; a realização integra tudo isso em uma única experiência. Não existe oposição entre esses aspectos. Eles constituem diferentes dimensões de um mesmo caminho.

Essa maturidade intelectual aparece ainda mais claramente quando Lama Samten descreve os debates entre grandes mestres de diferentes linhagens. Ele menciona Thrangu Rinpoche, Khenpo Tsultrim Gyamtso e outros eruditos que sustentam posições filosóficas distintas acerca da interpretação dos ensinamentos.

Talvez o aspecto mais bonito dessa descrição seja justamente a maneira como esses debates acontecem. Não se trata de disputas para determinar vencedores e perdedores. Cada mestre procura apresentar seus argumentos sem diminuir a dignidade da posição do outro. Há divergências profundas, mas elas não produzem hostilidade.

Esse modo de dialogar oferece uma lição extremamente atual. Em nossa cultura, divergências costumam converter-se rapidamente em conflitos identitários. A discordância passa a ser percebida como ameaça pessoal. O budismo tradicional mostra outro caminho. É possível sustentar convicções filosóficas muito sólidas sem transformar o interlocutor em inimigo.

Essa postura nasce diretamente da compreensão da vacuidade. Se nenhuma visão possui existência inerente, também não existe motivo para defendê-la como se dela dependesse nossa identidade. O debate torna-se investigação compartilhada, não combate.

É justamente nesse contexto que Lama Samten introduz a distinção entre a Segunda e a Terceira Volta da Roda do Dharma.

Na tradição budista, costuma-se dizer que o Buda ensinou em diferentes níveis, adaptando sua linguagem às capacidades dos discípulos. A chamada Segunda Volta do Dharma é representada principalmente pelos sutras do Prajñāpāramitā e pelos desenvolvimentos filosóficos da escola Madhyamaka. Seu foco é a vacuidade de todos os fenômenos.

Tudo aquilo que parece possuir existência própria revela-se dependente de causas, condições e designações conceituais. Nada existe por si mesmo. Essa compreensão dissolve progressivamente todas as formas de reificação.

Contudo, a Terceira Volta do Dharma dirige a investigação para outra questão igualmente importante. Se tudo é vazio, como explicar o fato de que as aparências continuam surgindo? Como compreender a experiência sem cair no extremo do niilismo?

É aqui que surgem interpretações diferentes dentro das tradições tibetanas.

Segundo Lama Samten, alguns mestres identificam a Segunda Volta principalmente com a abordagem Rangtong ("vazia de si mesma"), enquanto a Terceira Volta enfatiza a perspectiva Shentong ("vazia do outro").

Embora essas classificações sejam objeto de longos debates entre estudiosos, o ponto essencial permanece bastante claro. A Segunda Volta concentra-se na dissolução do engano; a Terceira destaca aquilo que permanece quando o engano desaparece.

Essa diferença é extremamente sutil.
Na perspectiva da Segunda Volta, insiste-se continuamente que todos os fenômenos carecem de existência inerente. Isso impede qualquer tentativa de transformar a realidade última em uma nova substância metafísica. Já a Terceira Volta procura mostrar que a vacuidade não é uma nulidade. Ela é inseparável da luminosidade, da capacidade cognitiva, da manifestação incessante da experiência.

Em outras palavras, a mente desperta não é um vazio semelhante ao nada. Trata-se de uma abertura infinita, inseparável da clareza e da capacidade de conhecer.

Lama Samten utiliza uma imagem muito significativa ao distinguir o espaço comum daquilo que a tradição Dzogchen chama de Kadag. O espaço pode servir como metáfora da ausência de obstáculos. Entretanto, Kadag não é simplesmente vazio como um recipiente desocupado. Trata-se de uma vacuidade plenamente viva, incessantemente presente, inseparável da luminosidade.

Essa distinção evita dois extremos igualmente perigosos. O primeiro consiste em imaginar a realidade última como uma espécie de substância eterna escondida atrás das aparências. O segundo consiste em reduzir a vacuidade a uma simples inexistência.

Entre esses dois extremos surge a visão não dual: as aparências são vazias justamente porque podem manifestar-se livremente; manifestam-se justamente porque sua natureza é vazia. Vacuidade e luminosidade deixam de ser dois princípios separados. São dois aspectos inseparáveis de uma única realidade.

Essa integração conduz naturalmente ao texto que Lama Samten anuncia como objeto das próximas palestras: o Madhyāntavibhāga. Esse tratado procura responder precisamente à pergunta que permanece aberta após a compreensão da vacuidade: de que maneira as aparências surgem?

A investigação não busca explicar a criação do universo, mas compreender o modo como a experiência acontece momento após momento. A manifestação não contradiz a vacuidade; ela constitui sua própria expressão dinâmica. Assim, compreender a origem dependente e compreender a luminosidade deixam de ser investigações diferentes. Ambas apontam para o mesmo mistério da experiência desperta.

Nos minutos finais da palestra, Lama Samten amplia ainda mais o horizonte histórico ao mencionar a tradição budista russa. Lembra que o budismo chegou à Rússia há muitos séculos por meio das conexões com os povos mongóis e que estudiosos como Fyodor Scherbatsky produziram importantes traduções e pesquisas sobre textos fundamentais muito antes de o budismo tornar-se conhecido no Ocidente contemporâneo.

Essa lembrança possui um significado simbólico importante. Nossa percepção costuma ser limitada pelos centros culturais que dominam a circulação das informações. Tendemos a imaginar que o budismo floresceu apenas na Índia, no Tibete ou, mais recentemente, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Entretanto, sua história é muito mais ampla, atravessando diferentes culturas, línguas e civilizações.

Esse reconhecimento também constitui uma prática de vacuidade. Quando abandonamos nossas narrativas estreitas sobre o mundo, percebemos que o Dharma sempre encontrou caminhos inesperados para continuar vivo.

Ao final da palestra, torna-se evidente que Lama Samten ainda não começou propriamente sua exposição sobre o Prajñāpāramitā. No entanto, ao apresentar as diferentes tradições, mostrar a humildade dos grandes mestres, revelar a riqueza dos debates filosóficos e situar historicamente os ensinamentos, ele prepara a mente do estudante para um encontro que exige muito mais do que inteligência conceitual.

A sabedoria transcendente não pode ser recebida como uma teoria entre outras. Ela exige uma transformação do modo de escutar. Antes de investigar a vacuidade, precisamos abandonar o apego às nossas certezas; antes de compreender a luminosidade, precisamos reconhecer os limites das nossas categorias habituais; antes de entrar no Prajñāpāramitā, precisamos aprender a habitar um espaço interior onde perguntas são mais valiosas do que respostas prontas.

A Perfeição da Sabedoria começa muito antes do primeiro conceito sobre a vacuidade. Ela começa quando a mente deixa de procurar um sistema definitivo para finalmente tornar-se disponível ao mistério da realidade. 
Nesse instante, o estudo deixa de ser mera acumulação de conhecimento e transforma-se em prática contemplativa. O Dharma deixa de ser objeto de reflexão para tornar-se o próprio horizonte a partir do qual aprendemos a ver o mundo, os outros e a nós mesmos. 

É essa mudança de perspectiva — discreta, profunda e quase imperceptível — que constitui a verdadeira porta de entrada para os ensinamentos de Prajñāpāramitā.

FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #30 - O Contexto dos Ensinamentos de Prajñāpāramitā).


ANEXO - Essência da Abençoada Prajnaparamita

Inconcebível, inexprimível Prajnaparamita.

Não nascida, incessante, por natureza semelhante ao céu.

Experienciada pela cognição discriminativa prístina da consciência autorreflexiva.

Mãe de todos os Vitoriosos dos três tempos, a você presto homenagem!
(Repetir 3 vezes)

O Coração da Bem-Aventurada Prajnaparamita.

Homenagem à Bhagavati Prajnaparamita!

***

Assim eu ouvi.

Uma vez o Abençoado estava residindo em Rajagriha, na montanha do Pico dos Abutres. Junto com ele estava um grande grupo da sanga dos monges e da sanga dos bodisatvas.

Em dado momento, o Abençoado entrou no samadi que examina os diferentes tipos de Darma, chamado “profunda iluminação”.

E, ao mesmo tempo, o nobre Avalokiteshvara, o bodisatva-mahasatva, enquanto praticava a profunda Prajnaparamita, viu que os cinco skandas eram vazios por natureza.

Então, pelo poder do Buda, o venerável Shariputra disse ao nobre Avalokiteshvara, o bodisatva mahasatva:

“Como deveria proceder o filho ou a filha de nobres qualidades que quisesse praticar a profunda Prajnaparamita?”

Por ter sido perguntado dessa forma, o nobre Avalokiteshvara, o bodisatva-mahasatva, disse ao venerável Shariputra:

“Ó Shariputra, um filho ou uma filha de nobres qualidades que desejasse praticar a profunda Prajnaparamita deveria ver assim:

Todos os cinco skandas têm a natureza da vacuidade.

Forma é vazio, vazio é forma. Forma nada mais é do que vazio, vazio nada mais é do que forma.

Do mesmo modo, sensação, percepção, formação mental e consciência são todos vacuidade.

Assim, Shariputra, todos os darmas são vacuidade.

Não têm características. São não nascidos e não cessam. Nem impuros e nem livres da impureza. Nem decrescem e nem crescem.

Portanto, Shariputra, a vacuidade não tem forma, nem sensação, nem percepção, nem formação mental, nem consciência.

Não tem olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente;

não tem aparência, som, cheiro, sabor, tato e objetos da mente;

não tem os elementos de consciências relacionados aos olhos (e aos demais sentidos físicos), e não tem mente ou elemento de consciência da mente.

Não tem ignorância, nem extinção da ignorância, nem os elos subsequentes até velhice e morte e a extinção de velhice e morte.

Do mesmo modo não há sofrimento, ou origem do sofrimento, ou extinção do sofrimento, nem caminho. Nem sabedoria, nem realização e nem não realização.

Portanto, Shariputra, uma vez que os bodisatvas não têm nada para atingir, eles se manifestam através da confiança na Prajnaparamita.

Uma vez que não há obscuridades mentais, não há medos.

Transcendendo completamente as visões falsas, atingem o derradeiro nirvana.

Todos os budas dos três tempos, por repousarem na Prajnaparamita, atingem completamente a iluminação perfeita e insuperável.

Portanto, o mantra da Prajnaparamita – o mantra da grande lucidez – é o mantra insuperável, o mantra que torna igual o que é desigual, o mantra que pacifica por inteiro todo o sofrimento.

Uma vez que não produz engano, deveria ser reconhecido como verdadeiro.

O mantra da Prajnaparamita é recitado assim:

***

TADYATHA

OM GATE GATE PARAGATE PARASAMGATE BODHI SVAHA

***

Shariputra, é dessa forma que o bodisatva-mahasatva deveria treinar-se na profunda Prajnaparamita.”

Então, o Abençoado retornou de seu samadi e louvou o nobre Avalokiteshvara, o bodisatva mahasatva, dizendo:

“Muito bom, muito bom! Ó filho de nobres qualidades. Assim é! Assim é!

É exatamente como ensinou. Deve-se praticar a profunda Prajnaparamita. Todos os Tatágatas irão felicitar.”

Quando o Abençoado pronunciou essas palavras, o venerável Shariputra e o nobre Avalokiteshvara, o bodisatva-mahasatva,

junto com toda a assembleia e todo o mundo com seus deuses, humanos, asuras e gandarvas, todos se alegraram, louvando o que o Abençoado havia dito.

Isso conclui o “Sutra do Coração da Bem-Aventurada Prajnaparamita”.

NOTA: Sob a proteção real do Rei Trisong Deutsen, em meio ao oitavo século, o tradutor tibetano (lotsawa) Bhikshu Rinchen De traduziu esse texto para o tibetano com o mestre (pandita) Vimalamitra. Isso foi editado pelos grandes tradutores tibetanos (lotsawas) Gelo, Namkha e outros. Esse texto tibetano foi copiado de um afresco em Gegye Chemaling, um dos templos do glorioso Samye Vihara.

[Esse texto foi traduzido do tibetano para o português e feita a transcrição fonética pelo trabalho conjunto de Phurbu Tsering (Pema Chime Dorje) e Lama Padma Samten, na sede do CEBB Caminho do Meio, Viamão, RS, no último dia do ano de 1998, com a motivação de trazer benefício aos de fala luso-brasileira].

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