No Retiro de Inverno de 2020 do CEBB, Lama Samten convida os participantes à deterem-se justamente onde muitos passam apressadamente na contemplação do Sutra do Coração: os versos de homenagem à Prajñāpāramitā. À primeira vista, parecem apenas uma introdução litúrgica, um conjunto de palavras tradicionais que antecedem o ensinamento principal. No entanto, a proposta da palestra é precisamente inverter essa percepção.
Versos Iniciais da Prajñāpāramitā
"Prajnaparamita não é um texto, é um entendimento. É uma forma de olhar."
"A contemplação das coisas como luminosidade abre a chave para entender o Prajnaparamita."
"Essa sabedoria é inconcebível, inexprimível, não nascida, incessante,
por natureza semelhante ao céu."
(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020)
Os versos iniciais não constituem um prólogo; eles já são o ensinamento. Em poucas linhas, condensam toda a visão da sabedoria transcendente, oferecendo ao praticante a chave interpretativa para tudo o que virá a seguir. Em vez de explicar conceitos, eles procuram transformar o olhar daquele que contempla.
Lama Samten mostra que diferentes tradições preservaram versões distintas do Sutra do Coração. A tradição Zen, seguindo Dōgen, utiliza uma versão bastante concisa, iniciando diretamente com Avalokiteśvara contemplando profundamente a Prajñāpāramitā e encerrando-se com o mantra "Gate Gate Pāragate Pārasaṃgate Bodhi Svāhā". Mas existem versões na tradição tibetana que preservam uma introdução e uma conclusão que não aparecem nas versões zen.
Em seguida, Lama Samten revela um princípio importante do caminho budista. A sabedoria não nasce da acumulação de informações, mas da transformação do modo como vemos. É possível conhecer todas as palavras do Sutra do Coração e permanecer completamente distante da Prajñāpāramitā. Da mesma forma, uma única frase pode abrir completamente a visão quando a mente encontra o ponto de onde ela foi pronunciada.
É nesse contexto que surge uma das afirmações centrais da palestra: Prajñāpāramitā não é um livro. Também não é simplesmente uma doutrina filosófica. É uma forma de olhar. O Sutra do Coração não descreve uma realidade diferente da nossa; ele procura revelar uma maneira diferente de perceber exatamente esta realidade que já vivemos. O texto não acrescenta algo ao mundo. Ele remove aquilo que impede que o mundo seja visto como realmente é.
Essa mudança de visão pode ser resumida numa única sílaba. Lama Samten recorda que existe uma versão extremamente condensada da literatura Prajñāpāramitā composta apenas pela sílaba A. À primeira vista isso parece quase incompreensível. Como todo um conjunto de ensinamentos pode reduzir-se a uma única sílaba? A resposta está justamente no significado atribuído a ela: luminosidade.
A luminosidade, nesse contexto, não é uma luz física nem uma energia misteriosa. Ela aponta para o fato de que todas as aparências surgem como manifestações da mente. Um poste não existe simplesmente como um objeto sólido independente. Ele surge porque inúmeras condições permitem que um tronco seja reconhecido como poste. O mesmo pedaço de madeira pode tornar-se lenha, escultura, coluna ou qualquer outra coisa. Nenhuma dessas identidades está contida na madeira em si. Elas surgem por designação, por função, por contexto e por relação.
Quando compreendemos isso profundamente, percebemos que a vacuidade deixa de ser uma ideia abstrata. Ela passa a ser a consequência natural da luminosidade. As coisas não são vazias porque inexistem; elas são vazias justamente porque aparecem. Elas aparecem de maneiras diferentes conforme as relações que estabelecemos com elas.
A luminosidade torna possível o aparecimento; a vacuidade impede que qualquer aparecimento possua existência independente. As duas não são aspectos separados. São duas faces inseparáveis da mesma realidade.
Entretanto, Lama Samten observa que os versos introdutórios vão ainda além dessa compreensão. Eles não apenas descrevem a natureza das aparências; descrevem também a própria natureza da sabedoria que reconhece essa realidade. É aqui que surgem os famosos qualificativos dirigidos à Prajñāpāramitā: inconcebível, inexprimível, não nascida, incessante e semelhante ao céu.
Cada uma dessas expressões merece contemplação demorada. Dizer que a sabedoria é inconcebível significa que ela não pode ser reduzida a um conceito. Os conceitos podem apontar para ela, mas nunca substituí-la. Dizer que ela é inexprimível significa reconhecer que nenhuma linguagem consegue capturá-la plenamente. As palavras apenas indicam uma direção.
Mais desafiadora ainda é a afirmação de que ela é não nascida. Nossa experiência comum organiza tudo em termos de nascimento e desaparecimento. Tudo parece começar em algum momento, desenvolver-se e finalmente terminar.
A Prajñāpāramitā, porém, não pertence a essa categoria. Ela não surgiu em determinado instante nem depende de causas específicas para existir. Ao mesmo tempo, também não desaparece. Por isso é incessante. Não porque permaneça como um objeto permanente, mas porque nunca esteve sujeita às categorias temporais que organizam nossa experiência comum.
A comparação com o céu torna essa descrição ainda mais sugestiva. O céu acolhe nuvens, tempestades, arco-íris, estrelas e aviões sem tornar-se nenhum deles. Nada do que aparece altera sua natureza aberta. Da mesma forma, a mente primordial acolhe pensamentos, emoções, lembranças, medos e desejos sem confundir-se com qualquer um deles. As aparências mudam continuamente; a abertura que permite seu aparecimento permanece livre.
Essa descrição conduz naturalmente à pergunta decisiva: como reconhecer algo que não pode ser pensado, descrito nem localizado?
A resposta apresentada pelos versos é extraordinária. Essa realidade é conhecida pela "cognição discriminativa prístina da consciência autorreflexiva". Embora a expressão pareça técnica, Lama Samten a identifica diretamente com Rigpa, a lucidez primordial descrita na tradição Dzogchen.
Rigpa não é um novo objeto de conhecimento. Também não é um estado emocional especial. Trata-se da capacidade da mente de reconhecer seu próprio funcionamento enquanto ele acontece. A mente continua percebendo formas, sons e pensamentos, mas simultaneamente reconhece como essas experiências estão surgindo. Essa lucidez não está presa aos referenciais que produz. Ela vê os próprios referenciais nascerem.
É justamente aí que aparece a diferença entre Rigpa e Ma-Rigpa. A mente comum não deixa de ser inteligente; ela simplesmente opera esquecendo o próprio processo de construção das aparências. Ela acredita que os referenciais que criou possuem existência própria. Passa então a viver dentro deles como se fossem absolutamente reais. Surge assim o samsara.
Lama Samten utiliza exemplos cotidianos para tornar essa diferença quase palpável. Um poste pode ser visto como madeira, como lenha, como elemento arquitetônico ou como matéria-prima para inúmeros projetos. Cada visão é funcional dentro de determinado contexto. O problema não está em utilizar essas construções. O problema surge quando esquecemos que elas são construções. Rigpa permanece consciente do processo criativo da mente; Ma-Rigpa perde-se completamente dentro das criações.
Essa compreensão permite interpretar uma expressão tradicional que costuma soar apenas devocional: Prajñāpāramitā é "a mãe de todos os Budas". A metáfora deixa então de ser poética para tornar-se profundamente filosófica. Todos os Budas realizam precisamente essa lucidez primordial. Eles não criam uma nova realidade; simplesmente deixam de confundir as construções mentais com a natureza última das coisas. A iluminação não consiste em adquirir algo inexistente anteriormente, mas em reconhecer aquilo que sempre esteve presente.
É por isso que Lama Samten insiste repetidamente na ideia do verdadeiro refúgio. Costumamos buscar segurança em objetos, pessoas, instituições, ideias e até mesmo em nossas identidades pessoais. Contudo, tudo isso pertence ao domínio das construções condicionadas. Tudo muda. Tudo envelhece. Tudo desaparece. O verdadeiro refúgio precisa situar-se num nível diferente. Precisa corresponder exatamente àquilo que os versos descrevem como inconcebível, não nascido, incessante e semelhante ao céu.
Essa perspectiva torna particularmente interessante a longa reflexão da palestra sobre a natureza, a biologia e a evolução. À primeira vista, essas considerações parecem afastar-se do tema do Sutra do Coração. Na realidade, fazem exatamente o contrário.
Lama Samten observa que toda a natureza manifesta uma extraordinária inteligência criativa. Plantas produzem folhas capazes de captar luz solar e transformá-la em alimento. Animais desenvolvem comportamentos sofisticados. As células adaptam-se continuamente às circunstâncias. As espécies evoluem ao longo do tempo. Nada permanece fixo.
Essa inteligência não é apresentada como algo separado da luminosidade descrita pela Prajñāpāramitā. Pelo contrário, constitui uma de suas expressões. Cada folha, cada célula e cada organismo manifestam um aspecto dessa criatividade luminosa. A realidade inteira torna-se um grande processo de surgimento dependente em permanente transformação.
Ao mencionar pesquisadores como Rolf Sattler e Rupert Sheldrake, Lama Samten sugere inclusive um diálogo fecundo entre ciência contemporânea e visão budista. A crítica dirige-se menos à ciência propriamente dita e mais ao mecanicismo, isto é, à tendência de explicar toda a vida apenas como repetição automática de códigos fixos. A perspectiva budista propõe uma visão muito mais dinâmica, na qual a inteligência permeia continuamente os processos vitais.
Essa inteligência, entretanto, não deve ser confundida com uma entidade separada governando o universo. Ela corresponde precisamente à luminosidade da mente primordial manifestando-se através das infinitas formas condicionadas.
Chegamos então à distinção entre mente primordial e Ālaya-vijñāna. A mente fundamental, frequentemente chamada de consciência-base, ainda pertence ao domínio condicionado. Ela sustenta as impressões cármicas e os referenciais que organizam nossa experiência samsárica. A mente primordial situa-se num nível mais profundo. É dela que surgem tanto as aparências quanto a própria consciência-base.
Essa distinção torna-se particularmente significativa quando Lama Samten imagina o desaparecimento completo de um mundo. Mesmo que civilizações desapareçam, planetas sejam destruídos e todos os referenciais condicionados deixem de existir, a luminosidade primordial permanece intacta. As marcas específicas armazenadas na consciência-base desaparecem; a capacidade luminosa que torna possíveis novas manifestações continua presente. Rigpa não depende das formas transitórias do universo.
Talvez seja justamente essa a grande mensagem dos versos iniciais da Prajñāpāramitā. Antes de ensinar a vacuidade dos fenômenos, eles procuram despertar confiança naquilo que jamais pode ser destruído. Não se trata de um "eu" eterno nem de uma substância metafísica escondida por trás do mundo. Trata-se da abertura luminosa que torna possível qualquer experiência.
Quando contemplamos esses versos lentamente, eles deixam de ser simples palavras recitadas antes da prática. Transformam-se numa descrição direta daquilo que somos antes de qualquer identidade, antes de qualquer medo, antes de qualquer construção conceitual. A homenagem inicial torna-se então uma homenagem dirigida à própria natureza desperta presente em todos os seres.
FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #31 - Versos Iniciais da Prajna Paramita).
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