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Despertando a Sabedoria (9): Roteiro dos Oito Pontos – Primeiro ao Início do Segundo


Dando continuidade ao ensinamento sobre o Roteiro dos Oito Pontos da Prajñāpāramitā, Lama Samten leva os participantes do Retiro de Inverno do CEBB de 2020 a refletir como a prática pode tornar-se uma transformação radical da forma como percebemos a realidade. O objeto da contemplação já não é apenas aquilo que aparece diante dos sentidos, mas o próprio processo pelo qual a realidade aparece. A questão deixa de ser "o que vejo?" e passa a ser "como aquilo que vejo surge?". Pois, a sabedoria da Prajñāpāramitā não pretende destruir o mundo das aparências; ela procura libertar-nos da ilusão de que essas aparências possuem existência independente. O caminho não consiste em abandonar o mundo, mas em aprender a vê-lo como o Buda o vê.

Roteiro dos Oito Pontos – Primeiro ao Início do Segundo

"Isso é, isso não é, isso é. Assim é o Caminho do Meio."

"A aparência coemerge com a mente."

"Não pensem que não-dualidade é uma coisa que a gente vai atingir. 
Não-dualidade opera o tempo todo."

(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020) 

A palestra inicia com uma expressão curiosa, retirada de Patrul Rinpoche, que imediatamente desperta a atenção: a "motivação tântrica secreta". O próprio nome parece prometer algum ensinamento reservado aos iniciados, mas Lama Samten rapidamente desmonta essa expectativa. O segredo não está em algum ritual oculto nem em algum conhecimento esotérico. O segredo consiste em compreender que a motivação comum ainda nasce dentro do samsara.

Mesmo a bodhicitta — o desejo de beneficiar todos os seres — continua sendo, em certo sentido, um movimento da mente que surge dentro de um cenário considerado samsárico. Ainda existe um praticante, um mundo problemático e seres que precisam ser salvos. Há generosidade, há compaixão, há intenção virtuosa, mas permanece uma estrutura dual.

A motivação tântrica secreta desloca o ponto de partida. Antes mesmo de surgir qualquer intenção, contempla-se o próprio ambiente onde essa intenção aparecerá. 

Não basta purificar o coração; é preciso purificar o mundo.

Por isso Lama Samten convida os praticantes a reconhecerem o lugar do retiro como Terra Pura. Esse reconhecimento não depende da qualidade objetiva do ambiente. O alojamento é simples. Não há conforto excessivo. Não há privacidade. Não há luxo. O que transforma aquele lugar em Terra Pura não são suas características físicas, mas a visão.

Aqui aparece um dos ensinamentos centrais de toda a palestra: a realidade nunca é apenas aquilo que está diante dos olhos. Sempre existe um modo de olhar. Esse modo de olhar constitui o verdadeiro mundo em que vivemos.

Essa observação pode parecer simples, mas possui consequências extraordinárias. Costumamos imaginar que primeiro existe um mundo objetivo e depois construímos interpretações sobre ele. Lama Samten inverte completamente essa ordem. A interpretação não vem depois. Ela participa da própria constituição da experiência.

Assim, reconhecer uma Terra Pura significa reconhecer que o ambiente nunca é apenas um conjunto de objetos físicos. Ele sempre aparece inseparável do campo de significados que nossa mente projeta.Entretanto, Lama Samten vai ainda além. 

Terra Pura não é o ponto final. Existe uma visão ainda mais elevada: a Mandala Vajra.

Enquanto a Terra Pura ainda pode ser entendida como um ambiente sagrado, a Mandala Vajra representa a percepção de que toda a realidade manifesta a natureza iluminada. Não existe um lugar especial onde o sagrado acontece; toda experiência já é expressão da luminosidade primordial.

Nesse momento, o praticante deixa de tentar construir uma realidade melhor para começar a reconhecer a realidade tal como ela sempre foi. Essa passagem é extremamente significativa porque prepara todo o restante da contemplação.

Se o ambiente já é percebido como Mandala Vajra, então todas as aparências tornam-se objetos legítimos da prática. Não há mais objetos profanos. Não há mais experiências descartáveis. Tudo pode revelar a natureza da mente.

É justamente por isso que Lama Samten retoma o Satipatthana. A contemplação dos dharmas não consiste em buscar estados extraordinários de consciência, mas em observar cuidadosamente aquilo que já está presente: Forma, Sensação, Percepção, Formações mentais e Consciência.

Os cinco skandhas deixam de ser apenas uma descrição psicológica da existência humana e tornam-se o próprio laboratório onde a vacuidade será investigada.

É interessante observar que Lama Samten faz uma observação pouco comum. Ele afirma que os cinco skandhas não constituem propriamente uma doutrina budista. O que é especificamente budista é a contemplação que os budistas fazem dos cinco skandhas.

Essa distinção é extremamente importante. Os agregados pertencem à forma como o próprio samsara organiza a experiência. O Buda simplesmente utiliza essa estrutura para mostrar que aquilo que parecia sólido nunca possuiu existência independente.

Não se trata de criar uma nova teoria sobre a mente. Trata-se de utilizar a própria experiência comum como porta de entrada para a sabedoria. A partir daí surge o primeiro ponto do roteiro contemplativo.

Escolhe-se qualquer objeto. Pode ser uma cadeira. Uma mesa. Uma almofada. Uma fotografia. Uma árvore. Qualquer coisa serve.

À primeira vista, parece uma contemplação extremamente simples. Mas, pouco a pouco, Lama Samten conduz o praticante para uma investigação radical.

O objeto existe? Sim. Não. E sim novamente. Essas três afirmações resumem toda a profundidade do Madhyānta-vibhāga atribuído a Maitreya. 

Primeiro dizemos que a mesa existe. Naturalmente existe. Podemos tocá-la. Usá-la. Escrever sobre ela. 

Em seguida descobrimos que ela não existe. Não encontramos a mesa na madeira. Nem na tinta. Nem nos pregos. Nem na cola. Nem em qualquer uma de suas partes. Ela desaparece quando tentamos localizá-la.

Mas então surge a terceira etapa. Ela existe. Ainda escrevemos sobre ela. Ainda colocamos livros sobre ela. Ainda a utilizamos normalmente. Essa terceira afirmação impede que a vacuidade seja confundida com niilismo.

É exatamente aqui que Lama Samten se aproxima do ensinamento do Sutra do Coração. Forma é vazio. Mas vazio também é forma.

O primeiro movimento dissolve a existência inerente. O segundo devolve o mundo à experiência cotidiana. Nada desaparece. Apenas desaparece a ilusão de independência. Esse movimento é talvez um dos aspectos mais elegantes da tradição Mahayana.

O objetivo nunca foi negar o mundo. O objetivo sempre foi libertar o mundo da rigidez com que o percebemos. Por isso Lama Samten insiste tanto no chamado aspecto sutil.

Quando olhamos uma cadeira, pensamos estar vendo madeira. Na verdade, estamos vendo descanso. Quando olhamos uma almofada, pensamos estar vendo tecido. Na verdade, estamos vendo conforto. Quando olhamos uma mesa, pensamos estar vendo madeira. Na realidade, vemos apoio.

Cada objeto manifesta uma função que nasce de uma rede de relações.

A cadeira depende do corpo. O corpo depende do peso. O peso depende da gravidade. A necessidade de sentar depende do cansaço. Assim, a cadeira nunca existiu isoladamente. Ela surge juntamente com toda uma rede de condições.

É justamente isso que significa originação dependente.

Nada aparece sozinho. Tudo existe porque incontáveis fatores convergem naquele instante. Essa compreensão conduz naturalmente ao item seguinte do roteiro contemplativo.

Lama Samten sugere algo surpreendente: contemplar obras de arte. Por quê? Porque na arte torna-se mais fácil perceber a construção da realidade. Quando assistimos a uma peça teatral sabemos perfeitamente que aquilo não é real.

Entretanto, choramos. Tememos. Odiamos. Amamos. Nossa mente reage como se tudo estivesse acontecendo. A arte revela, de maneira quase experimental, como os significados surgem. Ela permite observar a formação da experiência sem a densidade emocional da vida cotidiana.

Depois de compreender esse processo nas obras de arte, torna-se possível reconhecê-lo nas próprias relações humanas. É então que Lama Samten introduz um dos conceitos mais importantes de toda a sequência dos Oito Pontos: a coemergência.

Objeto e observador surgem juntos.

Essa afirmação parece simples, mas destrói completamente a visão dualista. Normalmente imaginamos um sujeito observando um objeto externo. A contemplação revela outra coisa. O objeto nunca aparece separado do modo como é percebido. Da mesma forma, o observador nunca existe separado daquilo que observa. Os dois surgem como aspectos inseparáveis de um único fenômeno.

É exatamente isso que Lama Samten chama de não-dualidade.

Não é um estado místico distante. Não é uma realização futura. Ela opera continuamente. O problema não é sua ausência. O problema é nossa incapacidade de reconhecê-la. Quando essa inseparatividade começa a ser percebida, torna-se possível compreender o ensinamento de Dharmata.

Nem o objeto. Nem a mente.

Ambos surgem como manifestações de uma natureza mais profunda. Essa natureza não dual manifesta-se simultaneamente como aparência e consciência. Por isso a prática deixa de ser uma tentativa de modificar o mundo e torna-se um reconhecimento contínuo de Dharmakaya em todas as aparências.

Primeiro dissolve-se a crença na existência independente dos objetos. Depois dissolve-se a separação entre sujeito e objeto. Somente então torna-se possível investigar os referenciais internos que estruturam toda a experiência. 

Esses referenciais são aquilo que Lama Samten chama de bolhas de realidade. As bolhas não surgem como uma teoria psicológica. Elas surgem como consequência direta da contemplação da vacuidade.

Depois de perceber que objeto e observador coemergem, resta perguntar: por que determinados mundos aparecem para determinadas pessoas? Por que duas pessoas vivem experiências tão diferentes diante da mesma situação? Por que uma relação muda completamente sem que o objeto aparentemente tenha mudado?

Essas perguntas conduzem naturalmente ao estudo das bolhas. Elas mostrarão que nossa identidade, nossas memórias, nossos condicionamentos corporais, nossa cultura, nossos hábitos emocionais e nossos referenciais constituem verdadeiros mundos experienciais.

Não vemos simplesmente a realidade. Habitamos continuamente uma bolha de significados. Contudo, mesmo essa bolha não possui existência inerente. Ela também surge por originação dependente. Também é vazia. Também pode ser contemplada.

Ao final da palestra percebe-se que Lama Samten não pretende oferecer apenas uma explicação filosófica sobre a vacuidade. Seu objetivo é construir uma pedagogia contemplativa cuidadosamente graduada. Cada etapa prepara a seguinte. 

Primeiro aprende-se a transformar o ambiente em Terra Pura. Depois reconhece-se a Mandala Vajra. Em seguida contemplam-se os objetos até perceber que são, não são e são novamente. Descobre-se então a originação dependente, a coemergência entre sujeito e objeto e, finalmente, a inseparatividade da mente e das aparências. Somente nesse ponto o praticante está preparado para investigar as bolhas de realidade.

A vacuidade deixa de ser uma ideia abstrata para tornar-se uma forma de habitar o mundo. O praticante aprende que cada aparência é um convite à contemplação, cada encontro revela a coemergência entre mente e fenômeno, e cada experiência pode ser reconhecida como expressão da Dharmata. 

Nesse percurso, a realidade deixa de ser um conjunto de objetos externos e transforma-se em um campo vivo de sabedoria, no qual tudo aquilo que aparece já contém, silenciosamente, a possibilidade do despertar.

FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #34 - Roteiro dos Oito Pontos – Primeiro ao Início do Segundo).

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