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Percorrendo o Caminho (4): Inevitabilidade das Ações Deludidas nas Bolhas do Samsara

Um dos maiores desafios da prática espiritual é conseguir enxergar o mundo sem permanecer aprisionado pelas narrativas que construímos sobre ele. No Retiro de Inverno de 2020, Lama Samten desenvolve essa temática com profundidade ao explicar que o segundo passo do Nobre Caminho (evitar causar sofrimento através das ações do corpo) somente pode ser compreendido quando está sustentado pela Bodhichitta, a aspiração genuína de beneficiar todos os seres. Sem essa motivação, qualquer ética acaba se reduzindo a um código de conduta condicionado pelos interesses do próprio grupo social que estamos inseridos. Com ela, porém, a ética deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma consequência natural da compaixão.

O ensinamento conduz imediatamente a uma constatação desconfortável: não somos indivíduos plenamente livres, mas personagens operando dentro de "bolhas" de realidade. Cada bolha corresponde a um conjunto de crenças, identidades, medos, preferências e narrativas que definem quem consideramos amigo, inimigo, aliado ou ameaça. Enquanto permanecemos identificados com essas estruturas, nossa percepção do mundo deixa de ser aberta e passa a ser seletiva. Beneficiamos aqueles que fortalecem nossa bolha e combatemos aqueles que parecem ameaçá-la. O sofrimento nasce justamente dessa identificação.

Essa análise desloca profundamente a compreensão convencional do mal. O problema não está em pessoas essencialmente perversas, mas na força das bolhas que moldam suas percepções. Lama Samten recorda diversos episódios da vida do Buda e de Guru Rinpoche para mostrar que até seres plenamente iluminados foram considerados inimigos por aqueles que se sentiam ameaçados por sua presença. Guru Rinpoche chegou ao Tibete não como conquistador, mas como libertador das ilusões; ainda assim, muitos desejavam sua morte, convencidos de que ele destruiria sua cultura e seu modo de vida. A tragédia não residia na maldade dessas pessoas, mas na incapacidade de enxergar além de seus próprios referenciais.

Essa inversão de perspectiva transforma completamente a prática espiritual. Se até um Buda pode ser percebido como inimigo, então o problema jamais está apenas na aparência das circunstâncias. A oposição surge naturalmente sempre que uma bolha sente sua estabilidade ameaçada. Assim, o praticante deixa de perguntar "quem está errado?" para investigar "que bolha está operando neste momento?". Essa pergunta, aparentemente simples, dissolve grande parte da energia emocional investida nos conflitos cotidianos.

É justamente nesse contexto que aparece a figura de Chenrezig, símbolo da compaixão ilimitada. Diferentemente de quem espera que os seres se tornem espiritualmente maduros antes de oferecer ajuda, Chenrezig vai ao encontro deles exatamente onde estão. Não espera que abandonem suas ilusões para só então acolhê-los. Os encontra no interior dos seis reinos do samsara, assumindo formas compreensíveis para cada realidade. Essa imagem sintetiza um princípio decisivo: a compaixão não escolhe destinatários ideais. Ela começa precisamente onde existem confusão, sofrimento e ignorância.

Daí decorre também a compreensão dos chamados meios hábeis. Beneficiar os seres não significa tratá-los todos da mesma maneira. Há momentos em que a ação apropriada é pacificadora; em outros, incrementadora; em outros, magnetizadora; e, em certas circunstâncias, pode assumir até mesmo uma aparência irada. Contudo, a ação irada budista não nasce da raiva. Surge exclusivamente da compaixão e somente quando existe uma relação de confiança capaz de sustentar esse tipo de intervenção. Quando essa confiança não existe, a firmeza pode produzir apenas afastamento do Dharma. Por isso, muitas vezes o meio hábil consiste simplesmente em permitir que a pessoa experimente as consequências naturais de suas próprias escolhas, permanecendo disponível para ajudá-la quando surgir abertura.

Esse entendimento modifica radicalmente a noção de inimigo. Os Budas não veem adversários; veem apenas seres aprisionados em bolhas de sofrimento. Samantabhadra simboliza a natureza búdica que jamais é destruída. Amitabha representa a possibilidade permanente de repousar na lucidez. Chenrezig encarna o esforço incessante para alcançar cada ser exatamente onde ele acredita estar preso. Nenhum deles combate pessoas; todos trabalham para dissolver as ilusões que fazem nascer a separação.

É nesse ponto que Lama Samten introduz uma reflexão particularmente impactante sobre a primeira das dez ações não virtuosas: matar. Seu ensinamento amplia profundamente o significado tradicional desse preceito. Matar não é apenas eliminar fisicamente alguém; é excluir o outro do nosso universo de significado. Sempre que pensamos que o mundo seria melhor sem determinada pessoa, grupo, povo ou cultura, a semente da ação de matar já está presente. O sectarismo, o racismo, o preconceito social e a intolerância religiosa tornam-se expressões refinadas da mesma dinâmica fundamental: negar espaço para que o outro exista.

Essa leitura ajuda a compreender muitos fenômenos históricos. Guerras, genocídios, perseguições religiosas e extermínios de populações inteiras não surgem porque monstros assumem o poder, mas porque grupos inteiros passam a operar dentro de bolhas que tornam determinadas vidas descartáveis. As pessoas continuam amando suas famílias, educando seus filhos e praticando gestos de carinho, enquanto simultaneamente defendem a eliminação daqueles que identificam como obstáculos aos seus projetos. A bolha produz essa impressionante cegueira moral.

No entanto, Lama Samten não limita essa análise ao campo político ou histórico. Ele a dirige também para o interior das comunidades espirituais. A sangha, apesar de representar o ambiente mais elevado da prática budista, continua existindo dentro do samsara e, por isso, pode igualmente transformar-se em uma bolha. Surgem divisões, disputas doutrinárias, rivalidades institucionais e sectarismos. O próprio Buda enfrentou conflitos internos entre seus discípulos e não conseguiu impedir completamente essas divisões. Esse fato não diminui a grandeza do Dharma; ao contrário, revela que nenhuma estrutura organizacional elimina automaticamente as limitações humanas.

Talvez um dos ensinamentos mais libertadores dados por Lama Samten seja justamente a afirmação de que o Dharma não depende de grupos específicos para sobreviver. Instituições aparecem e desaparecem. Linhagens florescem e declinam. Comunidades atravessam crises. Entretanto, a lucidez que fundamenta o Dharma permanece intacta. O Buda não nomeou um sucessor absoluto para preservar seu ensinamento; declarou que o próprio Dharma sustentaria a sangha. Essa decisão impede que a autoridade espiritual seja reduzida a uma disputa de poder e enfraquece a tendência sectária de imaginar que determinado grupo seja o único guardião legítimo da verdade.

Essa compreensão também altera profundamente nossa relação com as próprias falhas. As dez ações não virtuosas continuam surgindo enquanto habitarmos o samsara. Não se trata de atingir imediatamente uma perfeição impossível, mas de transformar cada impulso em objeto de observação consciente. A prática começa no nível grosseiro, evitando ações prejudiciais sempre que possível. Aprofunda-se no nível sutil, examinando as intenções que lhes dão origem. Finalmente, alcança o nível secreto, no qual se reconhece que a natureza búdica permanece intacta mesmo em meio às limitações inevitáveis da existência condicionada.

Surge então uma imagem extremamente bela do caminho do bodhisattva. O praticante não espera que o mundo se torne perfeito para agir. Também não exige perfeição de si mesmo antes de beneficiar os outros. Como manifestação do nirmanakaya, o corpo de emanação dos Budas, ele entra deliberadamente no mundo das contradições, sabendo que será incompreendido, criticado e, muitas vezes, rejeitado. Ainda assim, permanece presente, pois sabe que é precisamente dentro das bolhas do samsara que os seres necessitam de auxílio.

FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #21 - Inevitabilidade das Ações nas Bolhas do Samsara) 

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