Ao concluir a exposição sobre Dhyāna Pāramitā no contexto do Sutra do Diamante, Lama Padma Samten conduz o praticante a uma transformação silenciosa, porém radical. A meditação deixa de ser compreendida como um exercício de concentração voltado para a obtenção de estados mentais especiais e passa a revelar-se como uma forma inteiramente nova de olhar. Não se trata mais de afastar-se do mundo, mas de contemplá-lo com uma lucidez que dissolve, sutilmente, todas as construções que sustentam a experiência dualista.
Dhyāna, Vacuidade e a Contemplação Não Dual
"A meditação não nos convida a fugir do mundo, mas a vê-lo de tal maneira que a separação entre quem observa e aquilo que é observado começa, silenciosamente, a desaparecer."
"Quando a mente deixa de se fixar nas aparências, elas não desaparecem; tornam-se transparentes à luminosidade que sempre esteve presente."
"A vacuidade não elimina os fenômenos; revela-lhes a transparência. É essa mudança de perspectiva que o Sutra do Diamante convida o praticante a descobrir."
"A estabilidade da mente é apenas o início da jornada. O verdadeiro Dhyāna começa quando cada experiência passa a revelar, simultaneamente, sua aparência e sua natureza."
(Lama Padma Samten - Retiro de Inverno do CEBB de 2020)
Na palestra de conclusão dos ensinamentos sobre o Sutra do Diamante, Lama Samten inicialmente apresenta uma mudança de perspectiva sobre a prática meditativa.
Shamata representa a estabilização da mente. Enquanto a consciência permanece continuamente capturada pelos estímulos dos sentidos, qualquer tentativa de contemplação profunda será inevitavelmente interrompida pela sucessão incessante de pensamentos, desejos, memórias e reações. Por isso, a prática inicial consiste em desenvolver uma mente capaz de permanecer estável, sem ser arrastada pelas aparências.
Entretanto, essa estabilidade não constitui o objetivo final. Ela apenas prepara o terreno para algo muito mais profundo. Dhyāna começa exatamente quando a mente deixa de fugir dos fenômenos e passa a contemplá-los diretamente. Em vez de evitar o movimento do mundo, o praticante aprende a permanecer plenamente desperto no próprio coração desse movimento. As formas continuam surgindo, os sons continuam sendo ouvidos, as emoções continuam aparecendo, mas deixam de possuir o poder de aprisionar a consciência.
Nesse ponto, Lama Samten aproxima Dhyāna da tradição do Zazen e das práticas de Satipaṭṭhāna. O praticante não busca um estado de ausência de experiência, mas uma presença lúcida diante da experiência. O corpo é observado como corpo. As emoções são reconhecidas como emoções. Os pensamentos são vistos como pensamentos. Nada precisa ser negado ou substituído. A própria experiência, quando contemplada sem apropriação, revela espontaneamente sua natureza.
Essa mudança aparentemente simples modifica completamente o significado da meditação. O problema nunca esteve nas aparências, mas na forma como nos relacionamos com elas. O samsara não nasce porque existem objetos, pessoas ou acontecimentos; nasce porque imediatamente transformamos aquilo que percebemos em centros de referência para a construção de uma identidade. Cada percepção desencadeia uma cadeia de interpretações, desejos, aversões e expectativas. A mente passa a habitar um mundo que ela própria fabrica.
Por essa razão, Lama Samten propõe uma releitura profunda da própria distinção entre Hinayana e Mahayana. Em vez de entendê-las apenas como escolas históricas do budismo, ele as apresenta como diferentes posturas da mente. A mente hinayana é aquela que continua operando a partir de identidades consideradas reais. Ela interpreta os ensinamentos como objetos de conhecimento, acumula conceitos e organiza teorias, mas permanece prisioneira da ideia de um "eu" separado que pratica, progride e alcança resultados.
Essa observação é particularmente significativa porque desloca a discussão do campo das tradições para o campo da experiência. Uma pessoa pode estudar os ensinamentos mais elevados do Vajrayana ou do Dzogchen e, ainda assim, permanecer inteiramente presa ao materialismo espiritual, caso continue tomando sua identidade como fundamento da prática. Da mesma forma, um praticante dedicado aos ensinamentos mais antigos poderá manifestar a autêntica atitude de um Bodhisattva se contemplar todos os fenômenos a partir da ausência de identidade inerente.
Ser Bodhisattva, portanto, não depende do nome da tradição seguida, mas da maneira como a realidade é contemplada. O Bodhisattva reconhece que tanto ele quanto os demais seres possuem natureza búdica precisamente porque nenhuma identidade possui existência própria. A possibilidade da libertação universal repousa sobre esse reconhecimento.
É justamente nesse contexto que a vacuidade começa a revelar seu verdadeiro significado. Frequentemente imaginada como uma espécie de vazio absoluto ou negação da realidade, ela aparece aqui de modo completamente diferente. Vacuidade não significa que os fenômenos são ilusórios ou irreais; significa que eles deixam de ser considerados entidades independentes e autoexistentes.
Para ilustrar essa visão, Lama Samten recorre a imagens extremamente simples e, ao mesmo tempo, profundamente pedagógicas. O dragão de papel continua sendo um dragão. O Papai Noel continua encantando as crianças. A sala de meditação continua sendo uma sala de meditação. Nada disso precisa ser negado. O erro não consiste em perceber essas formas, mas em acreditar que elas possuem uma existência absoluta, independente das condições que as fazem surgir.
Essa abordagem impede dois extremos igualmente problemáticos. O primeiro consiste em tomar as aparências como absolutamente reais. O segundo consiste em rejeitá-las em nome de uma suposta vacuidade. Lama Samten chama essa segunda atitude, com fina ironia, de uma espécie de "vacuidade mal-humorada": uma tentativa de destruir o mundo em vez de compreendê-lo.
A verdadeira sabedoria não elimina o dragão de papel; contempla-o até perceber simultaneamente sua beleza e sua ausência de substancialidade. As aparências permanecem exatamente como são, mas deixam de aprisionar a mente.
Essa compreensão reaparece quando o Sutra apresenta os chamados Cinco Olhos do Buda. O Tathāgata possui o olho físico, mas também o olho da iluminação, da inteligência transcendental, da intuição espiritual e da compaixão ilimitada. Esses diferentes "olhares" não representam poderes sobrenaturais separados, mas dimensões de uma mesma lucidez capaz de reconhecer simultaneamente a realidade convencional e sua natureza última.
Daí decorre uma consequência decisiva: tudo aquilo que chamamos de mundo possui apenas uma existência dependente. Lama Samten utiliza repetidamente os exemplos dos grãos de areia, da sala de meditação e dos universos descritos no Sutra para mostrar que nenhum fenômeno existe por si mesmo. A sala existe enquanto convenção compartilhada; pode amanhã tornar-se alojamento, biblioteca ou qualquer outra coisa. Sua realidade não está presa a uma essência fixa, mas surge inseparavelmente da mente que a reconhece.
Essa inseparabilidade conduz naturalmente ao ensinamento sobre a não dualidade. Mente e fenômenos não aparecem como duas realidades independentes que depois entram em contato. Eles surgem conjuntamente. O olhar que vê a montanha e a própria montanha participam de um mesmo acontecimento luminoso. O observador não se encontra diante de um mundo completamente separado dele; ambos emergem simultaneamente dentro da manifestação da realidade.
Nesse ponto, Lama Samten aproxima essa experiência do ensinamento de Rigpa e de Dharmata. Rigpa representa a lucidez primordial, a capacidade de conhecer diretamente sem construir separações artificiais. Dharmata designa a natureza última de todos os fenômenos, o campo indiviso no qual todas as aparências surgem sem jamais romper sua unidade fundamental.
Vista dessa perspectiva, a individualidade deixa de ser uma barreira definitiva entre os seres. As diferenças permanecem funcionando no plano convencional, mas já não ocultam a profunda continuidade da natureza búdica que permeia todas as manifestações. A multiplicidade deixa de ser oposição e torna-se expressão da mesma luminosidade primordial.
É precisamente por isso que Dhyāna não consiste em abandonar o mundo, mas em vê-lo corretamente. A contemplação lúcida dissolve gradualmente todas as fixações sem destruir nenhuma aparência. O mundo permanece exatamente onde sempre esteve; quem se transforma é o olhar.
Quando essa transformação amadurece, a realidade deixa de ser um conjunto de objetos externos confrontados por um sujeito isolado. Tudo passa a manifestar-se como expressão inseparável da própria natureza primordial.
É nesse instante que a meditação deixa de ser uma técnica para tornar-se uma forma de habitar o mundo. O praticante não escapa do samsara; aprende a contemplá-lo de tal modo que sua transparência revela, em cada fenômeno, a presença silenciosa da natureza búdica.
FONTE: Inspirado nos ensinamentos ministrados por Lama Padma Samten no Retiro de Inverno do CEBB de 2020 (Ação Paramita - Áudio #46 Sutra do Diamante – Final).

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