No Bodhicharyāvatāra, a ausência de um capítulo explicitamente dedicado à perfeição da generosidade não indica lacuna doutrinal, mas o próprio alicerce silencioso sobre o qual todo o edifício do caminho do bodhisattva se ergue. Śāntideva escreve como quem pressupõe algo decisivo: quem se aproxima desse caminho já deu o passo mais difícil. A geração da bodhicitta não é uma técnica entre outras, mas um deslocamento radical do eixo da existência. Decidir tornar-se um ser deperto para o benefício ilimitado de todos os seres não é apenas um voto; é a forma suprema de generosidade, pois envolve a oferta antecipada de tudo aquilo que ainda não se possui — o próprio despertar, os méritos futuros, a própria identidade como projeto separado. Por isso, nos capítulos iniciais, quando os versos se movem entre louvor, oferenda e confissão, a generosidade não é tematizada; ela é o ar que se respira. Antes de ser ensinada, ela já foi assumida como condição de possibilidade do caminho. Essa...
Reflexões Sobre o Despertar